A A r

O Abecê

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

O assunto é antigo e sempre diverte o desocupado, a dona de casa, o letrado das feiras livres de todo nordeste brasileiro. Acompanhou o “pau-de-arara” ou retirante para os puritanos, quando do êxodo para os estados de São Paulo e Paraná. Manteve por longo tempo o nome de abecê nos povoados, vilas e cidades. Ganhou este apelido pelo formato de cartilha, que lembra o ABC usado nas escolas pelos alunos do primeiro-ano. Em outros estados foi chamado de folheto. O folheteiro chegava cedo às feiras livres e marcava o local adequado. Abria sua maleta e espalhava pelo chão os ABECÊS OU ROMANCES EM VERSOS, no formato de 15 por 20 centímetros com títulos sugestivos: Casamento da Raposa, O sertão virou mar, Seja puxa-saco e feliz, Nordestino no sul, entre muitos. Também pendurava num cordão esticado. Daí veio, o nome de Literatura de Cordel. Temas eram os mais variados desde cangaceiros, padre sem batina, viúvas sapecas, disputas por mulheres, sacrifícios e injustiças. O vendedor era um falastrão que sabia como ninguém valorizar as dificuldades dos outros que não sabiam ler. Quando chegava a hora certa envolvia os interessados no enredo e pedia para todos se aproximarem. Uns gargalham outros choram de emoção com delírios dos personagens. Tudo sem microfone ou caixa de som. Era no grito. Segredo mesmo era não contar o fim da história. Assim, o ouvinte para ficar por dentro e saber tudo, ou comprava ou pedia emprestado a quem comprou. Quem comprava ia para casa e lá pedia pra outra pessoa recitar no mesmo ritmo cadenciado. Estamos falando dos profissionais que percorriam as feiras realizadas na sexta-feira em Piaus, sábado em Itiúba, domingo na Camandaroba e segunda em Cansanção. Não havia folga neste trabalho. Terça-feira viajava para comprar as novidades na capital, Feira de Santana, Juazeiro ou Petrolina. Na quinta regressava, para sexta pegar no batente. Comércio pouco lucrativo, porém, cheio de encantos. Sabemos que alguns autores exploravam a pornografia, malicia e irreverências para ironizar os conhecidos. Outros narravam fatos verídicos com conselhos reparadores. Suas capas eram xilogravuras alusivas ao assunto. Seus aficionados eram motoristas, vaqueiros, mecânicos, tropeiros e pequenos fazendeiros. O pessoal da cidade comprova às escondidas, pois não ficava bem o sacristão, prefeito, delegado e dona de casa sair por ai exibindo um abecê. Com certeza os seus possuidores esperavam todo mundo dormir para então aproveitar a leitura na calada da noite. Hoje não se encontra esta preciosidade popular. Prometemos e vamos lançar através da Ong Serra de Itiúba um abecê do Piroca do Lino e do seu filho Raimundo. È nossa modesta homenagem a este itiubense que completará em julho próximo os seus cem anos de idade. Pioneiro e com raros seguidores desta fase lírica e simples da verdadeira identidade do heróico povo sertanejo.

Doutor fique descansado

Que este pobre coitado

Nunca vai lhe aborrecer

Pois quem nasceu no sertão

Do dinheiro da nação

Não tem direito comer

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com