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O Bom Artur

Valmir Simões

 

 

 

 

Conheci um amigo do meu pai que todos os dias ia ao nosso armazém para tomar uns goles de uma bebida com infusão de raízes que era apreciada pelos fregueses e que diziam servir para muitos males. O litro branco estampava o nome do tal “remédio” em letras maiúsculas sombreadas, com a finalidade de dar um destaque todo especial à bebida: MILOME. Era a mistura mais vendida entre todas que se encontravam na velha prateleira do armazém. No balcão um enorme rolo de fumo em cordas vindo da região de Oliveira dos Brejinhos (Ba) e, ali ao lado, um tamborete de madeira que era o trono não do Rei Artur, mas do Artur do Celta, como era também chamado, significando uma pessoa nobre e generosa. Procurava servir a todos sem distinção e, quando o assunto era assistir aos idosos e enfermos, estava sempre disponível ajudando a dar banhos, auxiliando as pessoas no tratar de seus doentes, sem nunca exigir nada em troca. De livre e espontânea vontade muitos lhe ofertavam alguma coisa em troca, na maioria das vezes com aquilo que ele mais gostava que era uma caninha e lá ia ele comprar um litro de MILOME. Quando a coisa apertava tirava uma soneca lá na venda do meu pai, no depósito dos fundos. Sempre acompanhava os enterros até o cemitério, fazendo questão de pelo menos uma vez pegar na alça do caixão. No retorno ia ao armazém do meu pai e pedia um pouco de álcool que ele passava nas mãos, com bastante cuidado. O bom ARTUR TEIXEIRA, homem de coração generoso fez falta aos mais humildes quando foi para o andar de cima.

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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