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O Confessionário

Humberto P. de Carvalho

 

 

 

 

 

Quem teme a Deus não esquece o Confessionário. Um móvel de madeira trabalhada, com uma cadeira no seu interior para o Padre sentar e ouvir, através de uma pequena janela, as confissões dos pecadores e pecadoras. Fica localizado na nave das Igrejas Católicas ou ao lado do altar. Era ali que muitos e muitas revelavam seus segredos ao Sacerdote, como um exame de consciência, segundo a fé cristã. Havia um ritual: o penitente, que nesta altura estava arrependido do feito e mal-feito, ajoelhava e, em voz baixa, fazia o sinal da cruz. Terminada a confissão aguardava sua penitência que podia ser rezar um Terço ou por em prática os avisos do Confessor. Dependia da gravidade dos atos praticados por pensamentos, palavras, obras e omissões contra os Mandamentos de Deus. Era uma maneira de apagar do inconsciente os pecados desde os mais banais até os “cabeludos”, como desejar a mulher do próximo. Somos guiados pelas conseqüentes influências do Satanás, até encontrar a poderosa crença para conter os incontáveis pecados listados nos Dez Mandamentos ou arraigados na tradição cultural, como o Original (Adão e Eva), o Venal (ingratidão), o Capital (vícios), o Mortal (desafios à fé).

Confessar os seus pecados aliviava os sofrimentos ligados ao arrependimento sentido por todos nós e também por não ter nada a justificar perante o Tribunal da Historia ou no Dia do Juízo Final, que não se sabe bem o seu significado. Seja o que for, certo é ter um Deus protetor só seu para superação das crises de valores emanadas das profundezas do íntimo.

Quem não se recorda do pecadilho que provocou noites insones. Resultado daquele momento inesperado que causou tantas confusões para você e os outros.

Hoje fazem parte do cotidiano umas olhadelas mais acuradas nos dotes provocantes e expostas das donzelas e celebridades masculinas. Continua sendo pecado?

Como conciliar, se as estatísticas mostram que apenas 48% dos lares brasileiros tem um casal casado no papel?

Muito tempo atrás, acontecido na época das Missões, a presença do Senhor Bispo Diocesano era obrigatória. Assim, uma senhorita carola e bonita andava triste e os comentários ouvidos diziam que era por ter 30 anos e não se casou. Outros malvados, falavam que o motivo era bem diferente. Ela pediu à família que queria confessar e acrescentou que só se confessaria com o Bispo. Diante da certeza que o Senhor Bispo não teria tempo, pois somente ele presidia a cerimônia do sacramento da Crisma e outras prerrogativas. Ela entrou no quarto que era chamado de camarinha e anunciou que só sairia quando fosse atendida. Com esta atitude as más-línguas anunciaram que estava grávida e de gente importante. Após rezas e ladainhas contou tudo para o Senhor Bispo. Morreu sem revelar para a plebe o seu segredo. Verdade mesmo é que logo após a confissão da dama o Vigário enterrou a batina e não mais regressou a Itiúba.

Mas, temos que considerar as reações naturais, com base no conjunto das casualidades que atormentam e fornecem ao mesmo tempo energia especial, quando para abandonar o conservadorismo.

É a manifestação do pacto não escrito, não revelado, firmado em sociedade machista e patriarcal como a nossa que força o pobre mortal a mudar de hábito e convicção com rapidez.

É chegado o momento de você, já de cabelos brancos e com netos crescidos, entregar a Deus os seus problemas, cumprir penitências e rezar um rosário com Salve Rainha, Pai Nosso e Ave-Marias. Você pode achar que não pecou ou não teve nenhuma importância aquele deslize em qualquer idade. É bom lembrar de cada um, pois vai ter de prestar conta no dia do Juízo Final ou acreditar que o humor se incorpora à consciência individual como salvação

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com