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O Badogue

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

Nós que nascemos no sertão baiano e em especial em Itiúba, até hoje pronunciamos BADOGUE para identificar uma peça, com uma forquilha de madeira, em forma de Y, que se prende duas tiras de borracha, cortadas de câmara de ar automóvel ou caminhão, com um pequeno pedaço de couro preso nas extremidades, com finas fitas da mesma borracha. Em outros lugares é conhecido como estilingue, atiradeira, bodoque e outras aberrações para nossos ouvidos de caçadores e competidores do velho e inesquecível brinquedo.

Havia um ás no manejo do Badogue. Morava do Alto do Vintém. Seu nome Luis da Jove, que podemos considerar o melhor em pontaria e destreza. Sua profissão para ganhar a vida era de “aguadeiro”, pessoa que conduz tropa de animais carregados com barris cheios de água doce, que vendia de porta a porta na cidade, antes da chegada dos canos de água tratada vinda do Açude Camandaroba. Este rapaz trabalhou por muitos anos na nossa casa na Rua Manso Sampaio. Pela sua educação e honestidade era companheiro nas nossas traquinagens. Ensinava a quem pedia sua maneira de confeccionar esta arma primitiva. Explicava como escolher a borracha e o tipo de forquilha. Um mestre no assunto. Quando alguém duvidava do que era capaz. Simplesmente, pedia uma “bala” e acertava no alvo escolhido e anunciado antes. Podia ser uma lata vazia ou uma garrafa. Sempre participou das caçadas nas Serras do Saquinho, Cruzeiro, Esconde, Encantado e nas fontes do Poço do Cachorro, Tanque Velho, Açude Jenipapo e Coité.

Aprendíamos tudo que ele ensinava, mas, quando chegava à hora de competir ele acertava o alvo nove de cada dez tentativas. Nós quando muito três em cada quinze. Hábil e talentoso era o “badogueiro”, que tempos depois virou padeiro. Mudou de casa e profissão e partiu para a Capital do Estado. Passou para nós lições que nunca esquecemos.

Esperamos que hoje faça pão, com a mesma facilidade que tinha com o badogue.

Falavam que em Itiúba uma família rica que tinha tudo de bom, mas, quis o destino que nascesse um filho com problemas mentais. Quando o garotão completou 10 anos o pai perguntou o que ele queria de presente. Ele respondeu quero um badogue. Todos os aniversários seguintes o pai recebia a mesma responda: quero meu badogue.

Aos 18 anos o pai fez a pergunta de sempre e ele respondeu : quero um carro novo.

Para que indagou o pai.

Para pegar mulher...

Ai o pai sentiu que ele havia melhorado e prosseguiu.

Para quê?

Para trazer para casa.

Para quê filho?

Para levar para o meu quarto.

Para quê?

Para tirar a roupa dela.

Para quê?

Para retirar o sutiã dela.

Para quê filho?

Para tirar o elástico e fazer meu badogue.

 

Não deve ser verdade, mas, com certeza ilustra uma paixão pelo brinquedo.

 

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com