A A r

Abelhas Africanas

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

 

Elas chegaram de mansinho vindo do “não sei de onde”. Escolheram e se concentraram nas pequenas cavidades, buracos de tatu e ocos de arvores existentes nas encostas das serras de Itiúba. Eram vistos com curiosidade os enxames em pleno vôo ou quando paravam para descansar da longa viagem. Logo se espalharam por todo município.

Desconhecidas e ao mesmo tempo agressivas, construíram suas colméias no chão, sempre protegidas do vento e da chuva. Produziam tanto mel que em pouco tempo chamavam a atenção. Chegavam notícias à cidade da extração de 10 litros a cada colheita – quando as nativas nunca passavam de três litros por cortiço.

Elas têm a mesma aparência das abelhas “italianas” e no inicio isso causou confusão. As “africanas” são valentes e protetoras. Ambas defendem as “suas casas” com ferroadas venenosas, quando sentem a aproximação de qualquer intruso – seja gente ou animal - com perseguições em vôos rasantes por 200 metros. Uma só abelha perturbada assanha o “vespeiro” e com centenas ferroando ao mesmo tempo, o melhor é correr a procura de abrigo seguro. Nas pessoas alérgicas a picada em dois minutos provoca coceira, dor, inchação e falta de ar, que pode levar a conseqüência pior.

Depois de 50 anos por aqui, já adaptadas, estão por todo nordeste brasileiro. Seguem sem pressa para o norte. Não param desde que foram introduzidas no Brasil cerca de cinqüenta rainhas no estado de São Paulo em 1956, com vista a melhoria da produção de mel. Metade fugiu quando estavam sendo manejadas e, sem controle nenhum, foram se cruzando e hoje estão na América do Sul e Central e há muito preocupam os fazendeiros dos Estados Unidos.

Já chamou a atenção dos estudiosos que estas “abelhas assassinas” ao invadirem as áreas ocupadas pelos pássaros e outros pequenos bichos, que necessitam destas “moradias” para se reproduzirem, rapidamente, desalojaram os antigos ”moradores”. Não se conhece dado preciso sobre os danos ao meio ambiente, mas, é fácil notar que vem diminuindo a quantidade de passarinhos nos céus de Itiúba.

Também as espécies das abelhas selvagens, nossas velhas conhecidas produtoras de mel, como a mandaçaia, jataí-mosquito, jataí-preto, uruçu, munduri, sanharó, sumiram da região. As abelhas, com ou sem ferrão, são insetos sensíveis às mudanças climáticas. Podemos conjeturar que, como conseqüência, vem caindo gradativamente à produção natural do pólen, seu alimento, outrora abundante, e assim, agravando o desastre ecológico no processo de polinização das plantas. Com certeza “as da terra” perderam a competição, por comida extraída das flores para as novatas abelhas africanizadas, boas de mel e de briga.

.

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com