A A r

O Mandacaru

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

 

Chuvas em ocasiões certas ou irrigação regular são certezas para dias melhores do lavrador da terra no sertão de Itiúba. Sofrer impassível ou abandonar tudo que resta como sua casa, sua roça e seus parentes em busca de alternativas de sobrevivência é a terceira.

Chuvas sempre foram e serão segredos de Deus. Então, fica por conta da fé a sobrevivência daqueles que ficam acomodados e sentados na soleira da porta do casebre, esperançoso de que a água tão necessária vai cair a qualquer hora. Eles sabem como ninguém o que significa uma gota d’água que mata sede. São fortes e persistentes, mesmo na incerteza do abandono do lugar que “as duras penas” arranca o sustento da família.

Alguns apelam para o mandacaru na caatinga nordestina para garantir alimento para seus pequenos criatórios de cabras, ovelhas e porcos nos períodos das secas costumeiras. Com cuidado para não “matar o pé de mandacaru” verdadeiro, cortam os “galhos” novos com facão e sapecam em fogo brando os espinhos. Em seguida cortam em pedaços e transformam tudo em ração para os animais mais fracos e o que sobra para os demais.

Estamos descrevendo a utilidade do mandacaru e não poderia deixar de mencionar a beleza das flores brancas, em forma de cálice amarelo por fora e roxos por dentro, que só abrem a noite e depois viram frutos nutritivos. É conhecido o ditado que vaticina: “quando o mandacaru floresce é sinal de chuva no sertão”. Certo é que ele tem muita proteína e água no seu caule, com grandes espinhos que também serviam às mulheres rendeiras, em substituição aos tradicionais alfinetes, como guias das linhas dos birros. Esses espinhos, quando penetra no pé ou não mão deixa a área toda dolorida, queima e lateja numa sensação desagradável intermitente, consagrada popularmente como “não me toque”.

É uma dádiva de Deus este cacto nativo que nasce e cresce na terra esturricada do Polígono das Secas, nome bonito para uma paisagem que mete medo até mesmo a quem conhece desde pequeno este flagelo. Contudo, são preservados mandacaru, umbuzeiros, joazeiros e ouricurizeiros com carinho, pois, como ninguém sabe, um dia pode precisar colher os seus frutos. Também cuida das outras espécies típicas da nossa caatinga, como xiquexique, caroá, facheiro, coroa-de-frade, palmatória, araticum, gravatá, ariri, cansanção, favela, angico, jurema, jatobá e outras. É assim o homem do campo itiubense, sem perder sua fé em Deus, sem perspectiva pela frente, improvisa, cria soluções e sem desalento vai resistindo e espantando a fome e a sede, mesmo sem entender o que é chamado por aí de ecossistemas de forma sustentável.

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com