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Sítios Arqueológicos

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

 

 

 

Vamos tentar relembrar um episódio arriscado repleto de emoções, que se passa em meados de 1950. Com o sucesso da criação e funcionamento da Rádio Cultural de Itiúba, uma sociedade voltada para divulgação das coisas da cidade, um grupo afoito despertou e formou uma equipe para catalogar e difundir as belezas naturais da nossa Terra. Decidimos que primeiro seria elaborada uma espécie de agenda dos futuros trabalhos. Cada um ficaria incumbido de como arranjar cordas, bateria de carro para iluminção, fios, máquina de tirar retratos, a farofa e a água, pois, ninguém é de ferro.

Tudo isto sem financiamento e só na cara e na coragem. Combinamos que as investidas obedeceriam a um código de ética, calcado na educação e nas boas maneiras. Iniciamos com uma visita a Capela de São Gonçalo do Amarante, considerada a mais antiga construção do município. Para lá seguimos a pé. Não havia estrada para veículos. Fomos recebidos pelos moradores com muito carinho e com autorização do encarregado entramos na Igreja. Deparamos com o altar construído só com pedra, sem nenhuma argamassa. Obra tão perfeita que até hoje mantém a imagem do Santo Padroeiro na mesma posição de 300 anos atrás. Como solução para proteger esta relíquia, a mesma comunidade que nos recebeu há mais de 50 anos, construiu nova Igreja, tendo o cuidado de manter tudo internamente no lugar de sempre. Prova da devoção de um povo católico que por muitos anos ficou isolado e não perdeu a sua fé.

Nesta viagem visitamos o cemitério local, com muro de pedras sobrepostas, possivelmente construído anos depois da Capela. Na época os sepultamentos dos fiéis eram feitos nas igrejas. Constatamos que era mantido o gesto ou tradição, que perdura até hoje, da visitação aos túmulos no dia 2 de novembro, considerado “dia dos finados”. Medo, talvez existisse nas lembranças de infância que teimavam nossa memória e não nos deixavam à vontade para identificar os mausoléus antigos. Alguns ainda tinham cruzes ou figuras de anjos com o nome e data do nascimento e falecimento. Achamos que aquele lugar era o espelho final para contemplação eterna do céu e portanto intocável. A Capela e o Cemitério da Serra do Adro pela história que guardam, ensinam que a vida encurta a cada dia que amanhece e são os desafios que nos mantém saudáveis para sempre sonhar, agarrados ao amanhã das nossas pequenas realizações.

Não basta entender a realidade. O imaginário e seus mistérios são bastante para evoluir e mostrar que o tempo passa e no curso do nosso envelhecimento, refletimos sobre nossas fantasias e erros sintonizados com o passado e o presente .

Hoje temos certeza que nossos trabalhos no Adro de São Gonçalo ajudou a preservar esses dois sítios arqueológicos itiubenses. Fica nosso apelo para que recebam os cuidados necessários para que o chamado progresso hipócrita não destrua o legado de três séculos.

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com