AS SERENATAS E AS GALINHAS

Fernando Pinto de Carvalho

Em noites de lua cheia, principalmente nas sextas-feiras e nos sábados, fazíamos serenatas pelas ruas da cidade. Pessimamente acompanhados pelo violão tocado por um de nós, soltávamos a voz na madrugada, para desespero dos pacatos pais das garotas "brindadas" por aquela manifestação espontânea de interesse, movida por um pouco de álcool e muita energia jovem transbordante.

Quando a fome atacava, uma saborosa galinha assada estava esperando por nós no forno de uma das padarias locais. Só que essas galinhas eram recolhidas dos seus poleiros sem o consentimento dos seus proprietários. Havia até um "expert" na "captura silenciosa" que se chamava Genésio. Ele até desenvolveu uma técnica batizada de "cala o bico". Aproximava-se silenciosamente e, de uma vez só, pegava o pescoço da galinha e pressionava as suas asas sob as axilas, não permitindo o menor movimento ou cacarejos.

Houve apenas uma falha nessas "operações galináceos". Sabendo que no quintal de uma famosa prostituta havia um criatório de gordas e bonitas galinhas, a turma resolveu atacá-las numa bela noite de sexta-feira. Na hora tudo pareceu correr bem. No dia seguinte, porém, o Rogério, o homem que pulou o muro e atacou a "vítima", estava na feira fazendo compras para a sua mãe, quando a prostituta apareceu. E, no meio da multidão, com sua potente voz que dava para ouvir num raio de 500 metros, disse que viu tudo que aconteceu na noite anterior e que se ele não pagasse as cinco(?) galinhas que pegou, faria um escândalo ali mesmo na feira e tudo poderia acabar na Delegacia de Polícia. Começou a juntar gente em volta deles e o

Rogério, pressionado, resolveu pagar, na hora, as cinco galinhas dela, mesmo sabendo que só havia levado uma.

Com esta retirada imprevista, o dinheiro que a mãe havia dado para a feira não deu nem para a metade das compras e o Rogério foi obrigado a mentir dizendo que havia perdido na rua quase todo o dinheiro que levava.

Depois de uma reunião onde todos os participantes da "operação" deram as suas opiniões, chegaram a seguinte conclusão: a falha ocorreu porque ninguém se lembrou que o trabalho de prostituta é eminentemente noturno.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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