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Uma Árvore a menos

Egnaldo Paixão

 

 

 

 

 

 

Não foi ele quem deu fim às flores,
causando incêndio no mundo inteiro.

Não foi ele quem matou os passarinhos
das árvores fincadas em sua rua..

Quem eletrocutou as andorinhas perto do lugar
onde ele construía gaiolas e queria silêncio, não foi ele.

Não adianta dizer que foi ele porque não foi.
Ele não deu motivos...

Não foi ele quem se juntou a muitos e derrubaram
parte do mundo queimando tudo.

Ele não estava entre os que decretaram
a morte da vida daqui há cento e vinte anos.

A madeira que ele usava viajava em navios
e para chegar até ele percorria léguas em ombros de homens
lombos de animais carros de bois correntezas de rios caminhões antigos.

Ele apenas deixou perene a lembrança de suas mãos
trabalhando a madeira pesada e duradoura.

Peças dele mãos de homem não suspendiam.
Peças que ainda hoje sustentam casas de cem anos,
cumeeiras tesouras portas janelas caibros ripas e ripões.

Quando Acelino talhava a madeira que resistiu ao tempo
ela já era uma árvore a menos que alguém matou, não ele

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com