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A Casca de Bala da Peça-Vovó

Valmir Simões

 

 

 

 

 

 

Ainda menino, tinha o costume de passar no Hotel Vitória para ver minha Dindinha Chiquinha e Tia Yayá, já que as duas administravam o referido Hotel, que ficava ali coladinho à Sociedade 2 de Julho. Dindinha me dava toda liberdade e quando lá chegava eu abria armários, comia doces, até fazia refeições de vez em quando. Da porta de entrada até o quintal, eu conhecia tudo como a palma das mãos. A minha tia me regulava e sempre dizia: - Não bula em nada aí, esse menino é fogo, fica esquipando no quintal, pra cima e pra baixo, não fica uma romã madura. Certo dia lá chegando, descobri uma peça de ferro polido, com um aro de bronze em uma das extremidades. Era ôca com mais ou menos uns 20 cm, de profundidade. Peguei e levei ao quintal, virei a parte do fundo e com uma pedra comecei a quebrar licuri. Em certo momento chega Tia Yayá gritando: - Ô Dindinha venha ver o que este menino está fazendo com a casca de bala da peça vovó que a senhora usa para calçar a porta de seu quarto. Saí correndo e deixando tudo para trás. Meu pai me falou depois que esta casca de bala fora deixada como relíquia pelos seus antepassados, quando da Guerra de Canudos. Eu depois compreendi o porque de tanto ciúme com aquele objeto.

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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