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Porta-saliva

Valmir Simões

 

 

 

 

 

Ali bem próximo ao Riacho do Béu, morava um senhor por nome Manso, pessoa muito amiga da nossa família. Um dos seus filhos, de nome Oscar, mais conhecido por Oscar do Manso, dedicava uma boa parte de seu tempo se aprimorando em tocar trompete, pois era o instrumento de sua paixão. Nunca foi um exímio trompetista. Certa vez fui até á casa do Manso, onde o Oscar também residia e ao aproximar-me já ouvia o som do trompete, decifrando as notas musicais. Era o Oscar sentado em um banco com um trompete e não tirava o olhar de uma velha partitura, presa na janela por quatro chuliadeiras. Fiquei abismado com o péssimo estado de conservação daquele instrumento, amassado, cheio de solda branca e a verdadeira cor do instrumento era de um amarelo pálido recheado de tons esverdeados, mais para zinabre. Ele tocava e tirava o bocal, virava o instrumento de boca para baixo e escorria muita saliva. Seus lábios apresentavam uma marca saliente deixada pela pressão que fazia para tocar. Sempre estava no seu colo uma toalhinha onde ele limpava a boca constantemente. Dizia: - Esta porcaria só serve para juntar saliva, perco mais tempo tirando saliva do que tocando.

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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