O ENGRAXATE "BOCA RICA"

Humberto Pinto de Carvalho

Quando apareceu em Itiúba, como todo aventureiro, tinha história para contar. Sempre que aparecia algum freguês para engraxar os sapatos, ele repetia a sua: "era pobre lá para as bandas do rio São Francisco e ao saber que surgira uma mina de cristal de rocha de nome Mimoso, local desconhecido para todos os itiubenses, lá cavou terra, quebrou pedra e encontrou o maior cristal já visto. Vendeu, ficou rico de uma hora para outra, e, como todos novos ricos, gastou o dinheiro com mulheres bonitas, roupas e viagens demoradas ao longo do rio São Francisco, nos navios chamados carinhosamente de “gaiolas”. Quando sentiu que a grana estava ficando pouca para gastar, lembrou-se de que estava banguela e logo providenciou duas dentaduras postiças. Na inferior todos os dentes da frente foram cobertos de ouro. Caprichou e exigiu do dentista que a superior fosse toda de ouro e assim foi feito.

Quando apareceu em Itiúba, pobre e com apenas uma caixa de madeira e material para engraxar sapatos, não detinha mais todos os dentes. Dizia que vendera alguns para sobreviver.

Mas, o que ele não contava e fomos descobrir muito tempo depois, é que dormia no quartel da cidade todas as noites, com medo de ser morto por alguém que desejasse os seus caríssimos dentes de ouro puro.

Como apareceu, também sumiu. Dizem que voltou para Juazeiro, na Bahia, e passou a viver na casa de um comandante de navio-gaiola que era boiola, um velho conhecido dos bons tempos da suas viagens.

São fatos tristes que aconteceram em Itiúba que hospedou e garantiu ao “Boca Rica” os seus dias de aventuras. Não se sabe o seu verdadeiro nome, nem se sua história é verdadeira. Certeza? Uma só... a sua boca era um tesouro ambulante."

 

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