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Puxando Fogo

Valmir Simões

 

 

 

 

 

 

Sábado, dia de feira na cidade, era também um dia de encontros de todos aqueles que vinham de suas propriedades vender seus produtos e comprar tudo aquilo que estivesse necessitando para a manutenção de seus lares. Era o bate-papo com o compadre, com o amigo que há muito não via e, como meio de comemorar aquele momento, nada melhor do que uns goles de pinga. A cerveja para eles, naquela época, não era muito apreciada, a cachaça sim, mesmo porque, no seu dia a dia de labuta na roça, sempre tinha uma garrafa da branquinha guardada para essas horas. Para o beberrão a pinga corta o frio e o calor ao mesmo tempo. No final da feira da cidade, muita sujeira na praça, os beberrões se despedindo uns dos outros, tomando a saideira, outros cambaleando nas ruas em forma de zig-zag, outros beberam e adormeceram nas calçadas ou ficavam sentados com o pescoço jogado para o lado. No meu tempo, quando víamos os bêbados cambaleantes dizíamos: - aquele cara tá “puxando fogo”. Animais carregando, sobre o lombo, o seu dono sentado sobre o alforje na sela e o surrão preso sobre o traseiro do animal. O surrão era um grande saco de pele de bode que, amarrado ao meio, separava dois tipos de alimentos, geralmente: farinha de mandioca e feijão. O alforje, também de couro, era formado por duas bolsas presas entre si e que traziam no seu interior outros tipos de mantimentos e era colocado ao lado da sela. Havia, ainda, uma correia que segurava um litro com querosene vedado por uma tampa de capuco de sabugo de milho. Era esse o verdadeiro tabaréu da caatinga que vinha para a nossa feira e voltava com “umas e outras” no juízo.

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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