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Nós somos Itiúba

Egnaldo Paixão

 

 

 

 

 

Nós somos os primeiros habitantes da montanha verde,

que fica no final da Chapada Diamantina

e que a chamamos de Abelha Dourada

e são suas terras férteis de muitas frutas e águas nascentes.

 

 

Nós somos índios das inexpressivas tribos dos Pataxós e Cariacás,

mortos por vontade de outra civilização perversa.

 

Nós somos a Capela de São Gonçalo do Amarante,

construída há quase quatro séculos perto de nossas tribos

para preparar a morte de todos nós, que viria em massa...

 

Nós somos João Gomes da Silva

que abriu fazenda de gado com seus escravos

no pé da montanha verde, estendendo-se a um vale

de muitas águas nativas e areia branca.

 

Nós somos o gado o café as terras árvores e escravos da fazenda,

germinando a aurora que despontaria depois...

 

Nós somos a aurora desvirginada,

saindo do horizonte para o meio da fazenda que se chamou Salgada,

trazendo trabalhos, sonhos e esperanças para os habitantes.

 

Nós somos a primeira casa erguida por dona Yaiá Bebé...

Nós somos os primeiros moradores da fazenda

e nela nos multiplicamos em negros índios e brancos,

sem que tivéssemos idéia do que aconteceria depois,

com aquela multiplicação livre desordenada e forte.

 

As primeiras casas somos nós...

As primeiras ruas somos nós...

As primeiras pedras retiradas de onde ninguém

mandava que se criassem ruas  avenidas e praças

e elas foram se criando por vontade de todos, somos nós...

 

Nós somos a marreta o formão e a força incomum dos braços de seu Leitinho,

retirando as primeiras pedras que impediam a expansão das ruas

praças e avenidas, com a obstinação de quem queria ver o resultado

de uma escultura por ele traçada em nada, para o vento beijar... e passar.

 

 

Nós somos a Igreja d e Nossa Senhora da Conceição

erguida no meio do vale quando este já era Vila.

 

Nós somos a Vila o Teatro da Vila e a vida

dos habitantes iniciais traçando metas em direção ao futuro,

com trabalho perseverança e luta.

 

Nós somos a primeira escola,

os primeiros mestres...

 

Os primeiros artesãos,

as primeiras criações...

 

os primeiros comerciantes,

os primeiros negócios.

 

Os primeiros Administradores,

os primeiros Vereadores...

alguns fizeram muito,

outros fizeram nada.

 

Nós somos os coronéis de ontem...

seus fardões guardados com orgulho

na memória e nos baús dos remanescentes.

 

Nós somos o Trem da Leste

passando nos fundos de nossas casas desde 1888,

trazendo e levando sonhos esperanças

conhecimentos e saudades tantas.

 

Nós somos o que vem acontecendo com todos,

desde os momentos cruéis em que dizimaram os nossos índios,

até o dia que um decreto disse, em 17 de janeiro de 1935,

que dali em diante seríamos um Município Independente,

com direito à Prefeitura, Câmara de Vereadores e cidadania.

 

Com as nossas contradições erros e acertos

sonhos e glórias suor e luta nós somos Itiúba no coração,

esta inquebrantável Canoa de Pedra navegando

com sua gente por mares às vezes agitados, às vezes mansos.

 

Nós somos Itiúba, ontem hoje amanhã... e sempre.

 

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com