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Batedeira, Sinuca e Carurus

Antônio Ricardo da Silva Benevides

 

 

 

 

 

A Batedeira do Clóvis Pitanga

 

Na esquina da Praça 3 de Outubro com o Beco da Faca, funcionava a batedeira de sisal de Clóvis Pitanga. Lembro-me, perfeitamente, de tudo que ali acontecia. Aos sábados a fibra era comprada ali mesmo; às segundas-feiras,no povoado de Covas. O motorista Bruelo, com seus auxiliares: Pocota, Nã e Orobó, seguiam naquele caminhão verde pela manhã. O carro só retomava à noite, carregado de sisal. O motor era ligado, aproximadamente, às 11 da manhã e o gerente Lila dividia as tarefas com os demais operários. A mais antiga operária era a Tonha do Buraco. Aquele barulho perdurava por todo o dia e quando as fibras já estavam limpas, eram prensadas e amarradas, transformando-se em enormes fardos, contendo uma etiqueta com as iniciais COP. Quando eu tinha oportunidade, invadia os depósitos para brincar com meus colegas de esconde-esconde. Só que, à noite, era uma coceira infernal, mas valia a pena, pois aquele era o melhor esconderijo de Itiúba. Não poderia, jamais, me esquecer do meu amigo Mário Quimilas, que trabalhava na supervisão, contando casos engraçados nas horas vagas, sempre cantando "Colcha de Retalhos", na segunda voz.

 

Sinuca

 

Recordo-me das competições que aconteciam no Bar Central entre os jogadores de sinuca. Como todos sabiam, o Queixinho era o maior jogador de sinuca de todos os tempos. Nós ficávamos sentados em um banco de cimento, apreciando as geniais tacadas do festejado jogador. Às vezes ele cacapava as sete bolas em sequência.

A jogatina acontecia todos os dias e as apostas rolavam entre os expectadores. Havia outros bons jogadores, a exemplo do Boca, do Paluta e do Zuca. As torcidas ali presentes faziam a maior algazarra quando o seu jogador predileto era o vitorioso. Uma presença marcante, naquele recinto, era a do Benjamim Cerqueira Lima, o Beijá, baforando o seu inseparável charuto. O Bejá tinha dificuldades de pronunciar algumas palavras, por exemplo: o proprietário do Bar Central era o Sr. Carlos Pires e ele o chamava de “Ta-Pi”.

 

Os Carurus

 

Os melhores carurus de Itiúba eram servidos na casa de Dona Firmina, em lindos pratos decorados, onde se serviam, também, licor de jenipapo, em copinhos de cristal. Dona Osmira tinha o mesmo ritual. Já o caruru do Zé de Souza tinha uma grande diferença. A sua casa situada ao lado da cadeia velha, era toda enfeitada com bandeirolas coloridas e lá aconteciam as danças e os cânticos acompanhados por atabaques, o que levava algumas pessoas a incorporarem o santo. As homenagens eram feitas para São Cosme e Damião e a música mais cantada era a seguinte: “São Cosme mandou fazer duas camisinhas iguais, uma para a festa e outra pro caruru”.

 

do livro Memórias Revividas

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com