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Os Romeiros e Outros

Antônio Ricardo da Silva Benevides

 

 

 

 

 

 

Os Romeiros

 

Eu ficava em frente à minha casa e com um pedaço de carvão ia anotando, na calçada, a quantidade de caminhões pau-de-arara que passavam em direção à cidade de Monte Santo, durante a Semana-Santa.

Aquela gente humilde, vinda dos mais distantes rincões da Bahia, a cantar e louvar, com músicas religiosas. A grande maioria usava enormes chapéus de palha na cabeça para proteger-se daquele sol insuportável do sertão baiano.

Os romeiros tinham como objetivo escalar a serra para, no alto da Santa Cruz, alguns fazerem promessas e outros pagarem por suas graças alcançadas.

 

O Prosador

 

Hermelino, também conhecido por Ioiô, foi o maior trovador e contador de estórias de Bocage e costumava passar meses recolhido em seus aposentos, lendo e escrevendo contos engraçados. Saia de casa arrastando-se pelo chão, protegido por um forro no assento e um par de luvas de couro, parando nas portas dos bares para contar estórias e fazer rimas com os nomes das pessoas.

 

Locadora de Bicicletas

 

O Sr. João França era comerciante, músico e criador de pássaros, diga-se de passagem, os mais bem cuidados de Itiúba. Seu João, como era conhecido, costumava botar canários para brigar e esse era o seu lazer predileto. Também criava galos de briga. A sua locadora era bem concorrida pelos jovens e lá estavam à disposição dos clientes: bicicletas Gulliver, Merksuisse e Monark, uma delas com freio contrapedal, a predileta de Elmo Coelho, o mais assíduo cliente, que era, também, o mais extravagante ciclista da cidade, especialista em subir em meio-fio com até 50 centímetros de altura; costumava pedalar em alta velocidade e frear de vez, dando vários cavalos-de-pau. Quando devolvia a magrela ela estava sempre com as jantes empenadas. Depois de tantos prejuízos, Elmo ficou proibido de alugar bicicletas e a solução foi fazer economia e comprar uma para que fosse destruída por ele próprio.

 

As Bicicletas

 

As bicicletas mais bonitas e enfeitadas de Itiúba pertenciam ao Dedé da Damiana e ao Rolinho da Varzinha. A bicicleta do Dedé era azul e tinha como acessórios duas buzinas, dois espelhos, um pisca-alerta, bolinhas de plásticos dos raios e um potente farol que iluminava os caminhos nas suas viagens à Fazenda Umbuzeiro, onde namorava com várias garotas. A sua marca registrada estava nos paralamas da bicicleta que traziam a expressão: “Mamãe, Dedé chegou”.

A bicicleta do Rolinho também era muito adornada e na cor vermelha metálica e seus acessórios eram uma buzina, um espelho, duas flâmulas, um farol e no assento uma capa de plástico com o escudo do Vitória, seu time predileto e logo abaixo um estojo contendo chaves e material para vulcanização.

do livro Memórias Revividas

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com