A A r

O Beco da Faca

Antônio Ricardo da Silva Benevides

 

 

 

 

 

 

Nos anos 60 do século passado, depois do movimento da feira livre de Itiúba que acontece aos sábados, reuniam–se no Beco da Faca os tipos humanos mais variados. Ao longo do Beco havia dezenas de pequenos estabelecimentos e a grande maioria deles só comercializava bebidas alcoólicas e cigarros.

Os pontos mais concorridos eram a Bodega do Luiz Garrafinha, também conhecida por “Café Nice” e o Bordel da Gracinda, que ficava ali próximo.

Nessas ocasiões, aquela rua se transformava em um verdadeiro campo de guerra e as brigas eram disputadas com armas brancas do tipo punhal, faca peixeira e enormes facões das marcas Colinos e Corneta. Os homens bebiam, sem parar, cachaça das marcas Superquentão, Pitu, Serra Grande, Velho Barreiro, 51, Conhaque Alcatrão de São João de Barra e a famosa Tampa de Capuco, fabricada por Joel Grande e Ábdon. As raparigas bebiam Genebra, Vinho Bahdi duas Bandeiras e Vinho de Maçã fabricado por seu Manoel Raimundo, no Beco do Chamego.

Por pequenos motivos, quando os homens já estavam alcoolizados, invariavelmente se desentendiam e logo já estavam em praça pública, lutando com facões em punho. O Antônio do Cori, considerado o Rei do Facão, ameaçava e desafiava a todos os presentes, e aí o Ananias candidatava-se para enfrentá-lo. Enquanto isso, o Zé Pereira do Olho D’água de Picos enfrentava o velho Simãozinho, um caboclo de baixa estatura que jogava facão como ninguém. Simãozinho afirmava que tinha o corpo fechado e que quando sentia que ia perder a briga, se transformava em um toco de pau.

As refregas se passavam das formas mais variadas, ocasião em que os ferros faziam reluzir as tortuosas pedras do velho calçamento e logo se viam as poças de sangue que jorrava dos golpes e vinha tingir a sarjeta. A catástrofe levava alguns a serem atendidos no acanhado posto médico local, onde eram tratados por Dr. Manoel e pelas enfermeiras Cecília e Wanda, figuras memoráveis que se destacavam pelos socorros providenciais que sempre prestavam a toda a comunidade.

E para completar a turma dos valentões, o Neném do Aurélio, disputava com Queixinho uma rapariga no bordel da Gracinda e logo partiam para uma briga de faca peixeira, e em seguida chegava Canuto do Ló de faca em punho, tomando partido em favor do seu amigo Queixinho.

Em frente ao bordel, ouviam-se os gritos do velho Escurinho que estava sendo agredido pelas filhas do Clarindo, pois segundo elas, o homem não havia pago pelos momentos amorosos desfrutados por ele e proporcionado por elas.

O Bejá, na qualidade de chefe de segurança do Cabaré da Gracinda, dirigia-se ao Armazém do seu Pompilio, “Delegado de Polícia”, e comunicava o fato, pedindo providências.

Minutos depois, chegava a “Policia de Choque” da Briosa Guarnição de Itiúba, comandada pelo o cabo Zé de Souza, acompanhado pelos soldados Dedé, seu Manoel e Zé Barbeiro que, fortemente armados com fuzis e parabelos, acabava com a guerra de arma branca.

Ao entardecer, os arruaceiros que moravam na Zona Rural, eram obrigados a deixar a cidade, logo montando em seus cavalos e seguindo para suas casas, prometendo, porém, voltar no sábado seguinte para promover novas arruaças; enquanto isso, os valentões de nome Queixinho, Neném do Aurélio, Escurinho e Canuto do Ló, eram conduzidos à Cadeia Pública e lá ficavam trancafiados até o dia seguinte, momento em que Vadinho Carcereiro destrancava aquele enorme e velho cadeado marca Pado, e dava liberdade aos afoitos desordeiros.

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com