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Outros Tempos

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

 

 

 

Ao narrar essas lembranças ocorridas no ano de 1943, quando, aos treze anos de idade, fui trabalhar como caixeiro no armazém do meu tio Belarmino, que tinha como gerente o senhor Pedro Oliveira, quero afirmar que elas são por mim consideradas como marco na minha vida como adulto. Portanto, quero falar das coisas que ficaram para trás, sem querer recriar ambientes saudosistas ou encantadores. Nas pequenas histórias o que vale são os significados dos acontecimentos.

Esse estabelecimento fazia parte do conjunto comercial que tinha uma loja que vendia tecidos, chapéus e calçados sob a direção do Senhor Nezinho. Esta ficava na esquina da hoje Avenida Getúlio Vargas com a Travessa Rio Branco, conhecida como o Beco, que faz a ligação com a Rua Cel. João Antônio. O referido armazém tinha sete portas de frente, mais depósitos para sacos de sal, engarrafamento de vinhos e vinagre. Na esquina oposta, existia uma área ocupada com grandes latões de zinco, que serviam de silos para feijão e milho e uma garagem para o automóvel e o caminhão do proprietário.

Durante a semana de segunda a sexta-feira o trabalho consistia em arrumar as prateleiras, conferir as novas compras, colocar o preço codificado. Vou descrever este tal código de letras. O nome usado no código era “petrolinas”. Cada letra tinha o correspondente em número: P=(1), E=(2), T=(3), R=(4), O=(5), L=(6), I=(7), N= (8), A= (9) e S=(0). Exemplo: a mercadoria, que custaria, a preço de hoje, R$9,37, receberia as seguintes letras: “a,ti” (a = 9, t = 3 e i = 7) . Em seguida em algarismos o preço de venda. Quando era admitido qualquer novo empregado o Senhor Pedro mostrava o código, com recomendação para não ser revelado em nenhuma hipótese. Quando era “quebrado” tinha de ser providenciado novo nome-chave e via de conseqüência a trabalheira para apagar o antigo de todo estoque.

Na Época os fregueses chegavam ao balcão com suas vasilhas de vidro para compra de gás (querosene), óleo de dendê e álcool. Também traziam latas com tampas para levar soda cáustica para fabrico de sabão em casa. O açúcar e o sal já estavam pesados e embrulhados e eram depositados nas mochilas de pano, bornal ou cestas. Plásticos para embalagem apareceram muito tempo depois.

Mesmo sujeita ao acaso a inteligência coletiva tudo muda e determina os costumes. Novos dados estatísticos confirmam e indicam que de cada dez itiubenses cinco vivem no campo, três e meio na cidade e um e meio em outras plagas. Na enxurrada do progresso desapareceram os marceneiros, os ferreiros, os alfaiates, os funileiros, os sapateiros e os armazéns de Secos e Molhados, foram substituídos pelos mini e supermercados e nesse embalo sumiram os empregos dos caixeiros como era o meu.


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com