UMA MULHER CHAMADA CANTU

Humberto Pinto de Carvalho

Cantu que não cantava, mas xingava bem, demonstrava que, embora na avançada idade, era uma mulher magra e forte. Caminhava da hora que acordava até o momento de dormir, indo da casa dela na Praça Nova (logradouro hoje ocupada pela antiga sede do Banco do Brasil) para as casas dos seus parentes. Todos nós, jovens na época, por curiosidade ou, quem sabe, para não deixá-la em paz com suas andanças, passamos a segui-la. A princípio ela não notou. Com o tempo viu e não gostou e xingava a todos, sem distinção. Como é sabido, daí para frente inventaram muitos apelidos, que não vamos mencionar. Apenas um que é lembrado. Vinha ela da feira com um capão debaixo do braço, toda prosa, quando a meninada achou que era o momento de ir à forra. Gritamos: “solta o galo que o bichinho vai morrer com o bafo!!!”. “Não vai morrer não”, retrucou. Voltamos a pedir solta, solta e ela sem xingar, sem demonstrar o descontrole habitual, muito calma falou: “aqui eu carrego um capão igual a vocês”. Foi o suficiente para desarmar toda a turma de malvados garotos. O que ela não previa era que Cantu Capão passou a ser o apelido que ela não gostava e que carregou por toda sua inocente e decente vida. Hoje, reconhecida por nós avós, que nos penitenciamos e pedimos perdão por tamanha brutalidade cometida, que, só pode ser creditada a não menos irresponsabilidade daquela fase de adolescentes, agora chamada acertadamente de “aborrescentes

 

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