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A Pestana do Pão

Valmir Simões

 

 

 

 

 

 

Desde criança sempre gostei do pão fabricado nas padarias de Itiúba, uns de boa qualidade, outros nem tanto. Até os dias de hoje há quem encomende a compra dos pães, eu sou um deles. Certa vez cheguei a comprar 35 unidades, distribuí entre os filhos para que provassem aquele saboroso pão que parece que nem fermento tem, na geladeira dura 8 dias, quem come um só não se contenta. Existe uma brincadeira de mau gosto que diz: O pão é bom assim porque a massa é socada com os pés. Puro folclore, nada disso é verdade, o que é certo é que é fabricado de uma maneira que mantém o mesmo sabor e textura de 60 anos atrás. Ainda menino lembro que certa vez fui a uma padaria e tive a oportunidade de ver como se processava a massa. De um lado do forno um velho cilindro era movimentado por um ajudante que rodava uma manivela sem parar, sempre trocando de uma mão para outra, uma pessoa lançava uma quantidade de massa entre os rolos do cilindro e aparava do outro lado entre os braços suados e cabeludos. Fazia este procedimento várias vezes, para dar uma consistência à massa, depois cortava em pequenos pedaços e colocava em uma enorme pá de madeira. Junto à extremidade da pá ficava um copo de vidro com água e um pedacinho de madeira, tipo palito de picolé, com uma bandinha de lâmina de gilete amarrada na extremidade, o padeiro retirava do copo aquele artefato cortante e com lances rápidos, aplicava talhos na massa, com o objetivo de dar o acabamento final, antes de levar ao forno para assá-la. Bico de pão e pestana eram muito gostosos. A higiene naquele tempo ficava de lado. Quem se importava? Ninguém. O padeiro se coçava, corria os dedos na testa para escorrer o suor, socava a massa, às vezes nem as mãos lavava. Que tempo aquele. Nos dias de hoje é tudo diferente.


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com