A CHUVA DE GRANIZO

Humberto Pinto de Carvalho

Chuva de Granizo, precipitação atmosférica não comum na nossa região nordestina. Quando acontece desperta o medo do desconhecido e traz grandes prejuízos para todos. A crendice sertaneja é rica nas definições do porque desses fenômenos. A ciência apenas lembra que, lá no alto, as gotas de água se congelam ao atravessar uma camada de ar frio e provoca o fenômeno.

Temos registrado, na nossa memória, a grande "Chuva de Pedras" ocorrida em Itiúba. Trabalhava como coletor federal e, ao fechar a repartição, olhava o horizonte e tudo parecia estranho, a cor das nuvens, os trovões. Lembramos que tudo começou por voltas das 17h. A princípio era um ruído sem explicação, como se o céu estivesse sendo agitado por forças invisíveis. Em seguida caíram os primeiros pingos de água com tamanhos irregulares.

Pareciam bolas cristalizadas que ao tocarem o chão não se alastravam de imediato. Essa constatação era testemunhada por nós, jogadores de gamão, àquela hora da tarde. Como por mágica tudo escureceu. Quase não houve tempo para correr e se abrigar. Foram 45 minutos de chuva de granizo.

Pedaços pequenos e grandes. Logo o forte vento aglomerava todos perto do meio-fio das calçadas e nas esquinas das ruas. Não corria água no chão. Todas as áreas ficaram cobertas de gelo. Só depois de duas horas o gelo derreteu e surgiram as primeiras pequenas enxurradas.

Muitos choravam. Outros deliravam. Alguns, com medo daquilo que não dominavam, perdiam o controle emocional. Era o caso do “Tetéo”. Quando ele conseguiu chegar ao Armazém do Banduca correu para o muro e de lá do fundo gritou:

- Banduca sangue fede?

Poucos ouviram, pois ali, naquele momento, vigorava a “lei de murici – cada qual cuida de si”. Quando tudo se acalmou, alguém lembrou do pobre “Tetéo”.

Lá estava ele todo molhado, sujo, triste e certo de que sangue não fede. Uma constatação fisiológica que ele jurava não ter acontecido, embora muitos tenham testemunhado o acontecimento.

 

 

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