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A Feira

Antônio Ricardo da Silva Benevides

 

 

 

 

 

Desta vez desejo fazer um breve relato sobre a Feira Livre de Itiúba por volta dos anos 60, 70 e 80. A feira era instalada ao longo da Avenida Getúlio Vargas, iniciando-se nas proximidades do Clube 2 de Julho e se estendendo até a Praça da Matriz.

Ali se vendiam frutas de boa qualidade vindas diretamente da rica Serra de Itiúba. Sobre os caçuás, ficavam expostas as seguintes maravilhas: banana d`água, banana maçã, banana da prata, lima, pinha, laranja, sapoti, caju, jaca, jabuticaba, goiaba, manga e muitas outras. Alguns vendedores colocavam carbureto nas bananas para amadurecer precocemente, a exemplo de Cosme que armava sua barraca às quatro horas da madrugada da sexta para o sábado, para garantir um bom lugar naquele mercado aberto. Mesmo sendo administrada pela Prefeitura local, por intermédio dos fiscais Vinvim, Manoel Xavier e Vitor, tendo como encarregado Paulino Matos, sendo que muitos comerciantes não obedeciam as demarcações.

Em seguida, armavam-se as barracas de madeira cobertas de lona. Hildebrando de Cansanção vendia roupas de marca; na barraca do Quinidio vendiam-se calçados, brinquedos e material esportivo; nas barracas do Fio Homem e do Quinca vendiam-se bugigangas; Alzira Coqueiro, Santa e Dona Mariana do Florzinho vendiam tecidos, fazendo concorrência com as Lojas de seu Cícero Marques, Loja Elegante, Loja do Aurino e a Loja do meu Padrinho Augusto Moura.

Não faltavam os deliciosos doces do Santinho e o Quebra Queixo do Zé e a famosa gengibirra do Euclides. Nas proximidades do Bar Central, ficava a banqueta de seu Maia, esposo da enfermeira Wanda que abria sua maleta preta forrada de veludo vermelho repleta de anéis, alianças, correntes, brincos e pulseiras de ouro maciço que eram exibidos e testados puxando-se o arame correspondente ao objeto que o cliente gostaria de adquirir. Seu Maia era um senhor de cor clara, de baixa estatura e também muito risonho. Seus enormes dentes bem cuidados chamavam a atenção de toda clientela, que era composta pela classe alta de Itiúba. Ele andava impecavelmente bem trajado, a bordo do seu Fusca novo em folha. Com o passar do tempo, seu Maia por ser um bom mercador, ficou conhecido em toda a região como Senhor Abravanel.

No largo da Matriz vendia-se milho, feijão e farinha de mandioca, os vendedores mais conhecidos eram Emídio Preto, que não parava de sorrir, os outros eram Dadá, Tonho do Zuza e Antônio da Laurentina. Perto dali, eram expostas as mais lindas peças e objetos de barro cozido, sendo os potes, as moringas, os aribés e os caqueiros produzidos na Fazenda Tapera os mais procurados. Também ficavam expostas no chão as esteiras, os boca pios, os chapéus de palha e animais vivos, como galinha caipira, peru, cágado, pato e passarinhos.

Na parede lateral da Igreja Matriz, em demonstração, ficavam portas, janelas, cadeiras, espreguiçadeiras, tamboretes e armários vindos das regiões de Picos e Ponta Baixa. Já no final da praça, Dona Salomé da fazenda Umbuzeiro, expunha enormes cestas de ovos protegidos por samambaia, os quais eram disputados pelas donas de casa.

A grande atração da Feira de Itiúba era a Hiper Barraca do Pai Velho que, conduzindo seu velho caminhão marca G.M.C. de cor verde, lotado das mais variadas bugigangas que eram descarregadas em frente à Igreja, ocupava uma área de aproximadamente cinco metros de comprimento.

Dentre centenas de itens lá comercializados podemos citar os seguintes: brilhantina e óleo Glostora; sabonetes das marcas Gessy, Phebo e Vale Quanto Pesa; pasta dental Colipe e Kolynos; óleo de Mutamba; óleo de Ovo; leite de rosas; desodorante Mistral e Vaness, pente Flamengo; espelhinhos ovais com direito a fotos de mulher nua no verso; funil de zinco, candeeiro, colher de pau, abanador de palha, sino, pavio de candeeiro, coador de café, novelo de linha, tubo de linha Corrente, chamador de nambu, bacia pequena de esmalte, muito utilizada nos bordéis da cidade, esmalte de unha, batom; rouje; espora para animais, bola de gude, pião, cinturão e suspensório, carteira de dinheiro, isqueiro, abridor de garrafa, penico, dedal, naftalina, anil, prato, xícara, cadeados das marcas Papaiz e Pado, escoador de prato, cuscuzeiro, chaleira, caldeirão, parafuso, prego, grampo-de-cerca, chocalho, espoleta, pólvora, cartas de baralho, etc.

Alguns anos mais tarde, dâ-se o falecimento de Pai Velho, o qual foi sepultado no cemitério de sua terra natal, isto é, na vizinha cidade de Cansanção. Como costuma acontecer, o povo de Cansanção em peso passou a comentar coisas a respeito do finado. Pessoas que habitavam nas proximidades do cemitério afirmavam ter visto suas enormes unhas brotando das profundezas da cova. O fato causou, na época, uma imensa comoção, chegando ao conhecimento das autoridades, as quais para melhor esclarecer o fenômeno, acharam por bem convidar os vários representantes religiosos da região para invocarem a proteção divina, a fim de desvendar e desmistificar aquelas estranhas aparições.

Para tanto foram convidados os seguintes sacerdotes, cada um representando sua crença: o vigário da paróquia, o pastor protestante, o médium Kadercista e alguns pais e mães-de-santo. .


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com