O ELEGANTE SULU

Humberto Pinto de Carvalho

Quando chegamos a certo estágio da vida é natural que a nossa memória assinale e faça aflorar alguns entes queridos da nossa adolescência, mostrando que somos passageiros viajando a galope num período relativamente curto, e tudo que é observado é processado e gravado.

Nossa Itiúba, por razões que até hoje desconheço, recebia com muito carinho alguns desvalidos da sorte que por lá perambulavam. Não perturbavam a ordem. Simplesmente percorriam todas as ruas com seus trajes curiosos, como o que ficou conhecido como Sulu. Sumia e reaparecia por períodos de seis meses. Mas, todas as vezes ostentava uma vestimenta que chamava a atenção. Todo bem vestido e de chapéu na cabeça. O detalhe era que não era um chapéu. Colocava na cabeça cinco, seis, ou melhor, todos os velhos chapéus que encontrava nas ruas. Uma pirâmide ambulante. O mesmo ritual era vestir todas as calças, camisas e paletós que recebia ou achava em qualquer lugar. É constrangedor relembrar essa figura folclórica. Não era um palhaço. Devia ser um príncipe que habitava sua imaginação doentia. Ria, cantava e conversava animadamente com os moradores, sem molestá-los e até sem se queixar de nada.

Na vizinha cidade de Cansanção encontraram o Sulu. Parecia outra pessoa. Limpo, com uma só roupa e um só chapéu. Indagado da mudança de comportamento, apenas balançava a cabeça e dizia:

- Estou noivo.

Moral da história: para doido, doida e meia. Não se sabe a verdade desse estranho noivado. Certo é que o Sulu desapareceu de Itiúba. Deve ter encontrado a princesa dos seus sonhos de andarilho para a qual se arrumava com cuidados excepcionais e com máxima elegância.

 

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