A A r

O Jumento e a Moto

Valmir Simões

 

 

 

 

 

Às vezes fico imaginando o que a evolução do tempo é capaz de fazer. Maria montou em um jumento para chegar a Belém e o menino Jesus, ao nascer, foi contemplado por diversos animais e o jumento estava lá, juntinho à manjedoura. É um animal abençoado, nasceu para carregar pessoas e pesadas cargas, a sua cor cinza não encobre a cruz em preto que carrega no dorso.

Nasci e me criei vendo o coitado do animal carregando latões de leite, cargas de lenha em cangalhas, tijolos, e servindo de montaria, tendo sua barriga esfolada por esporas e levando chibatadas no traseiro. O animal não fala, nem resmunga, como expressar seu sofrimento? Pela fome, sede e dor? Se alimenta de tudo que encontra pela frente, é pau pra toda obra. Deu muito lucro ao seu patrão. Hoje em dia vemos esses animais abandonados, passando fome às margens das estradas, valendo míseros trocados. Aos poucos as motos foram tomando o lugar dos jumentos, por vários motivos: não precisa de pasto, não usa arreio ou cabresto, não precisa ferrar, dá menos trabalho, corre mais do que o jumento, vai aonde ele não vai, bebe, mas não come, é mais valorizado, no entanto o dono tem que ser equilibrista e ter carteira para pilotar. Não conheço ninguém que morreu de queda de jegue, no entanto as quedas de motos geralmente são fatais. Sou a favor do jumento, sou do tempo do ronca. Que se dane as motos.

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com