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Oxente Gente

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

 

 

Ausente por quarenta anos, sempre me fiz presente nos acontecimentos de Itiúba. Volta e meia lembro-me do linguajar praticado. Muitas pessoas confundem os sotaques do nosso sertão com o jeito de falar dos outros estados nordestinos. Acredito ser apenas uma desinformação. Tem quem afirme que o baiano, o sergipano, o alagoano, o pernambucano, o paraibano, o rio-grandense e o cearense falam cada qual o seu dialeto. Penso que todos os sertanejos possuem identidade própria, como também pelos sotaques estão limitados a cada região. Contudo, quando estão juntos por muito tempo a exemplo de São Paulo, o que se ouve é a adaptação do regionalismo à cultura dos residentes em qualquer plaga.

Por aqui foi que a língua portuguesa iniciou sua longa jornada, com a colonização. E havia um motivo: era o porto mais perto do Velho Continente. Demorou muito tempo para alcançar as outras partes do país a influência lusitana. Herdamos um português dos colonos e dos degradados. Errada ou fraca a língua falada em qualquer lugar é aceita com suas gírias e sotaques.

O sul recebeu os Jesuítas, que na sua maioria falavam espanhol. Outro acontecimento notável aconteceu com o desembarque dos escravos vindos da África Negra. Os índios foram empurrados para o interior e sua língua caiu no esquecimento. Assim, dessa miscelânea, nasceu à forma de falar por boa parte da população de então. Senão vejamos: Quem tem sorte é cagado. Coisa pouca é tiquinho. Ouvidos são ouiças. Mangar é zombar. Estressado é apoquentado. Pipôco é estampido. Triste é borocoxô. Confusão é rolo. Mania é presepada. Complicação é nó cego. Miúdo é pixote. Ruim é peba. Medroso é frouxo. Muriçoca é violino. Chicote é peia. Roupa folgada é fololó. Agonia é gastura. Suor é inhaca. Sem dinheiro é liso e louco. Espanto é vôte. Ao sair diz: vou chegando. Quando adentra diz: imburaco. Magro é xôxo. Elegante é luxento. Calça curta é meia-coronha. Mulher pequena é tampa de binga. Homem pequeno é toco de amarrar bode. Homem grande é galalau. Pessoa desengonçada é lapiau. Longe é fim do mundo. Passear é bater pernas. Concordar é estou às ordens. Bisbilhotar é inxirir. Morrer é bater as botas ou se apagou. Ganhar na loteria é ter estrela na testa. Tadinhos são aqueles que se penalizam por tudo e por todos. Espero que apareça outro, com tempo e sem medo dos vigilantes de plantão do certo e do errado, para continuar essas buscas antológicas.

E então? É iapois - chega por hoje “já me vou”, mas, “não vá simbóra”. Convenhamos que as expressões imbulânça e insistença, que alguns teimam pronunciar para designar os veículos que prestam socorro, são fatos raros. “Porém, ouvir numa barbearia local após raspar a barba: qué arco, tarco ou qué qui mói” ainda pode acontecer.

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com