A A r

Itiúba - Poema de 1985

Egnaldo Paixão

 

 

 

 

Em sentido côncavo

é a tua paisagem,

a tua forma

bem brasileira

bem sertaneja...

 

E é assim,

para que tudo repouse em teu regaço,

a areia, a pedra, a água dos riachos...

 

E tu cresces

amante irresistível

bondosa irresponsável

clara submissa

rude

e selvagem...

 

Em sentido côncavo

é a tua paisagem para que não se percam as emoções de teu povo

nas ruas, nos bares, casas, escolas,

na Igreja Matriz, junto à casa de Guilherme

(tocador de harpas

e na Sapataria do Jipe, onde as pessoas

estacionam todas as tardes,

até a hora de jantar e dormir...

 

E é assim

para que as pessoas

se vejam todos os dias...

Soares da Farmácia

Joel da Cachaça

Alicio

Oliveira

Benevides

Luiz da Loja

Clóvis do Banco

Zé Pretinho

Lourival

Carlos Pires

Antônio da Agência

e os Amigos do Bar Fuxico

que fumam, bebem e trocam idéias

sobre a vida,

alheia...

 

Em sentido côncavo

é a tua paisagem para que os painéis da cidade

dancem uma dança selvagem, cambaleante,

caindo em teu colo de amante irresistível:

Lourilou, Bar Central, Oliveira, Benevides,

Stilo Center, Shampoo, Farmácia Santa Maria,

Banco Econômico, Giotec, Bar Estrela, Sapataria Ideal

para nela se ver a técnica rudimentar de teu povo,

que faz lindas panelas de barro do Arraial da Tapera...

 

E é assim,

para que as pessoas

saibam tudo o que se passa

entre si:

quem parou de beber

quem bebe demais

quem trocou de carro

quem está de roupa nova

quem fez investimentos recentes

quem ganhou mais dinheiro

quem perdeu

quem é viciado

quem trai

quem é traído

quem está sendo executado

quem está executando

quem viajou

e para onde

quem chegou

quem engordou

quem casou

quem vive bem quem vive mal

quem vive péssimo...

 

Sabem tudo

ou quase tudo:

o que comem

o que falam

o que pensam

numa confissão tácita e recíproca...

 

Em sentido côncavo

é a tua paisagem para que as pessoas

com facilidade passem da afeição ao ódio,

que deve ser expurgado na missa de domingo às oito

da noite... e nada fica,

porque o ódio em Itiúba é menino sem lógica

que não traz perigo.

 

E é assim,

para que o amor retorne todas as manhãs

em tua paisagem de sentido côncavo,

em teus painéis, nas ruas,

em tuas panelas de barro do Arraial da Tapera

em tuas canções de areia, pedra, água dos riachos...

em teu povo de fala mansa,

pouco trabalho, muita miséria,

contemplativo,

de tradição,

filho das três, quase índio,

pacato e puro,

supersticioso, religioso,

prole de padres

(pais do espírito

e da carne)

que deixaram filhos

feitos em escravas,

feitos em índias

e prostitutas...

 

Em tua paisagem de sentido côncavo

há muita coisa para se ver e contar:

coisas que metem medo,

coisas que fazem rir,

coisas de arrepiar.

 

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com