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O Sisal

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

 

Grande parte da região compreendida do nordeste baiano é chamada de caatinga, especialmente a Bacia do Rio Itapicuru-Açu. Na década de 1940 o Governador Landulfo Alves deu início aos incentivos financeiros com distribuição gratuita de mudas do sisal, como solução para melhor a ocupação desta vasta região castigada pelas secas. Poucos agricultores tinham ouvido falar dessa planta. Em nossa Itiúba chegou através das mãos do fazendeiro Dedeu Vilas Boas, que com recursos próprios plantou e esperou por quatro anos para colher, desfibrar, secar, enfardar e vender a primeira tonelada de sisal. Sua façanha chegou ao conhecimento das autoridades municipais e estaduais e arrebatou o primeiro prêmio pecuniário como “O Pioneiro”. Investiu todo dinheiro recebido e tornou-se o maior produtor em Itiúba.

Outros entraram nessa lavoura e em pouco tempo tínhamos grandes extensões plantadas. Nos quatro cantos do município se ouvia o roncar dos motores a diesel. Itiúba passou por três fases. Primeira plantou. Segunda colheu e beneficiou. Terceira industrializou com as batedeiras, processo que separa as impurezas das fibras secas. Só assim podiam preencher as normas do comércio exterior. Com preços compatíveis os produtores do sisal empregavam milhares de pessoas, como plantadores, cortadores, condutores, desfibradores, carregadores, enfardadores. Homens e mulheres obtinham rendas certas. Nos bons tempos centenas de famílias direta ou indiretamente dependiam para sua sobrevivência da produção regular do sisal. Setenta e cinco municípios baianos plantavam esta fibra natural. Em meados da década de setenta a situação mudou para pior. Quase toda área sisaleira fora abandonada. O custo ficou muito acima do preço de mercado. Os campos de sisal foram queimados e replantados com capim para animais. Restaram pequenas áreas aproveitadas com o desfibramento à base do farracho, um instrumento rústico inventado para substituir o motor-diesel.

Sem nenhum aviso de crise internacional ou no mercado interno o sisal entrou numa concorrência desleal com a fibra sintética. E perdeu por falta de planejamento e descaso dos órgãos responsáveis pela sua lavoura.

É sabido que houve descuido quanto à escolha e preparo do solo. Sem ajustes em bases sustentáveis não se melhorou o trato na seleção de mudas. Também no aproveitamento, beneficiamento, enfardamento e armazenamento. Até o seguro contra incêndio virou fonte de lucros para alguns espertalhões. Sempre aparecia um ratinho lambuzado de gasolina e em chama provocava os incêndios criminosos nos depósitos com grandes estoques, mantidos pelo Governo Federal para garantir o preço mínimo.

Contudo a Bahia continuou por anos sendo o maior produtor de sisal do País. Como muitas pessoas eram bafejadas pela sorte de ter plantio de sisal, o Estado que arrecadava milhões com impostos, não pensou no futuro do sisal e seus empreendedores. Todos foram surpreendidos com a chegada da fibra sintética. Mesmo assim, ano passado a Bahia exportou mais de cinqüenta milhões de dólares com produtos derivados do sisal.

As mesmas dificuldades no inicio desse cultivo, que continua dependente da agricultura familiar, sem boa capacitação técnica, com equipamentos rudimentares, que produzem fibra de má qualidade e sem nenhum aproveitamento dos subprodutos contidos nos resíduos, é difícil acreditar na sua plena recuperação. Uma pena sem duvida. Somente 3 a 4% do peso da folha têxtil do sisal é aproveitado na indústria, que converte em fios, cordas, tapetes, sacos, bolsas, chapéus. Apesar de tantas aplicações, somente o fio agrícola tem sido utilizado até agora, graças às exigências dos grupos de vigilância ao meio ambiente. Que apareça uma Comissão Executiva do Plano da Lavoura do Sisal Brasileiro, para lutar com os parcos recursos dos Programas de Incentivos Fiscais para salvar a lavoura e milhares de empregos perdidos nesta pobre região.

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com