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O Lava-pés na Semana Santa

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

 

Sempre quis narrar passagens da minha adolescência voltada para a religião praticada por toda minha família. Pensava não ser compreendido por muitos. Hoje acredito que pela proliferação no nosso Município de Templos Religiosos, construídos e freqüentados pelos seus seguidores, o meu receio não cabe nesta realidade.

Tempos atrás, quase todos os casamentos, batizados, crismas, confissões e aconselhamentos eram através do Vigário da Freguesia. Divórcio não existia. A união era até que “Deus nos separe”. Qualquer separação amigável ou litigiosa era condenada pela sociedade. A cultura se transforma de geração para geração de acordo com os costumes dos participantes. Os atos públicos envolvem comunidades regionais e locais que, de certa maneira, aceleram essas mudanças de hábitos.

Tecer comentário sobre esses assuntos é temerário e assim passarei a contar episódios que não esqueci como as cerimônias da Semana Santa com sua procissão em silêncio, acompanhada do som produzido pelo atrito de dois vergalhões de ferro e a madeira da velha matraca. Era quase um murmúrio abafado pelas pisadas dos fiéis que percorriam as ruas da cidade em fila dupla. O sino da Igreja permanecia mudo em respeito à tradição milenar. A Missa de Ramos, a Missas da Ressurreição, fazem parte das celebrações do Tríduo Pascoal que lembra a ultima ceia de Jesus com seus apóstolos e a ação de Jesus, quando lavou os pés de seus discípulos. Havia uma encenação com os jovens vestidos a caráter sentados a frente do altar, que relembrava o momento em que Jesus sentou com os apóstolos para Santa Ceia. O Padre no papel de Jesus representava a partilha do pão e vinho e logo a seguir munido de uma bacia de louça com água e uma toalha branca, cumpria a tarefa de lavar o pé-direito de cada um. A cerimônia do Lava-pés encerrava quando os doze meninos-apóstolos como seguidores de Cristo nas suas peregrinações retiravam as faixas que conduziam nas suas vestimentas e que ali significavam as omissões, doenças, desesperanças e pecados da população, não só naquela noite, mas, em toda a sua vida.

Ao final da cerimônia os fieis passavam a rezar e alguns choravam copiosamente. São esses últimos que não me saem da lembrança de quando participei dessa nunca esquecida fase vivida numa Quinta-feira distante, seguindo a vocação história religiosa de então na fé cristã contida nas Escrituras.

Ter o pé lavado e beijado, num momento em que a figura do Cristo na véspera da sua morte e num ambiente coberto de panos roxos e brancos que dava um ar de verdade ao ambiente acontecido na distante Jerusalém, deve ter, de alguma forma, influenciado o meu proceder no dia-a-dia de respeito ao próximo. Com este ato instituído por São Pedro ao ensinar a todos como o sinal de humildade. Certamente, para mim valeu participar como apóstolo aos dez anos de idade e absorver, de modo lento e silencioso, a lição do sentimento coletivo, evitando que, ao longo da vida, a ansiedade interrompesse meu caminho, sem fugir do território da infância e suas superstições.

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com