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Raios, Relâmpagos e Coriscos

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

 

São bonitos. Eles lá e eu cá. Itiúba que é cercada de serras com a altura média de 600 metros é propicia a esses grandes espetáculos noturnos. Mas, por que brincar com uma força indomável da natureza que viaja a 22,5 mil km/hora tem descarga de 300 mil volts de eletricidade em milésimos de segundo e aquece o ambiente em 300 mil graus – 5 vezes mais que a temperatura do sol - e que provoca evaporação instantânea? É energia suficiente para ferir, derrubar árvore, abrir buraco no chão, provocar incêndios florestais, destruição de prédios e pontes, danos graves em veículos, interrupção de energia elétrica. No nosso país caem 25 milhões de raios por ano.

Tempos atrás ouvi três fatos relacionados aos temidos e lindos raios:

“Em 1950, num belo dia de domingo, fui despertado, às cinco horas da manhã, por meu pai, para ir caçar jacu na Serra do Itapicuru. Chegamos ao cume por voltas das 7 horas. Rapidamente construímos, com galhos e folhas verdes, as chamadas “esperas” embaixo das duas cajazeiras que por lá existiam. Eu e meu Velho entramos nos abrigos improvisados e tínhamos que ficar em silêncio até aparecer à primeira ave. O sol que brilhava se escondeu e logo desabou muita água com muito trovão. No segundo estrondo meu pai saiu do esconderijo e disse para irmos para outro local. Fomos para um destampado e ali recebi recomendação para colocar longe a espingarda e o facão. Sem nenhum material de caça, ficamos sentados no centro da laje grande, recebendo vento e chuva. Os relâmpagos continuaram por mais de uma hora. Quando passou o aguaceiro, regressamos aos abrigos e por lá ficamos até às17 horas, sem que aparecessem os jacus esperados. Tinha aprendido a primeira lição sobre tempestade: nas trovoadas fique longe de qualquer coisa mais alta que você”.

“Na Fazenda Morubixaba, que fica perto do Povoado Bela Vista de Covas, criava vacas e alguns jumentos selecionados na tentativa de formar uma nova raça. Numa noite escura caiu uma trovoada com relâmpagos, fazendo a noite parecer dia. Logo depois ouve um estrondo e um clarão rápido. No dia seguinte estavam mortos, no curral, cinco vacas, três bezerros e o jegue garanhão pampa, animal com quem pretendia iniciar um plantel diferente. Segunda lição: raio não tem hora para matar”.

Noutra Fazenda de nome Mata da Serra, na região do Povoado Ponta Baixa, comprei uma área vizinha, com uma ruína de casa antiga. Mandei demolir o que restava e apareceu um senhor de idade, montado num cavalo, e foi logo perguntando a razão daquele trabalho. Expliquei e acrescentei que gostaria de saber o porquê da sua pergunta. Ele baixou a voz e disse: - Aqui moravam meus pais que não acreditaram no primeiro aviso de Deus quando um raio destruiu o chiqueiro das cabras matando todo rebanho e minha irmã. Cinco anos depois veio outro raio que entrou pela cumeeira da casa e matou os dois. “Terceira lição: ainda existe quem acredita que raio não cai duas vezes no mesmo lugar”.

Ouvi do meu primo Abel um relato do choque que recebeu quando estava vendo televisão na sua casa, no Alto do Vintém, há muito tempo: - Por volta das nove horas, uma faísca atingiu a antena da TV e todos que estavam por perto do aparelho ligado sentiram sensações de queimaduras. Tão rápido aconteceu que nem ele ou os seus familiares souberam explicar o acontecido. Afirmam que se sentiram magnetizados. Passado o episódio, ficou constatado que ninguém estava doente ou gravemente queimado. Só os danos materiais eram visíveis. O lampejo azulado saindo dos fios rentes ao chão era assustador.

Mesmo a fração desta monumental temperatura é suficiente para retirar toda água das árvores, animais e pessoas. Estatísticas mostram que por ano morrem em todo mundo vinte mil pessoas. Como são poucos os estudos sobre as conseqüências dos raios nos países tropicais como o nosso, não se deve refutar qualquer historia a respeito dos acidentes. Todo cuidado é pouco quando serpenteia nos céus relâmpagos seguidos de trovões.Portanto, vale encerrar com informações de como se proteger nos dias das trovoadas: não tocar em fios eletrizados, telefones, eletrodomésticos, computadores e canos de passagem de água. Não conduzir moedas, chaveiros, relógios ou qualquer coisa metálica. Permanecer no interior dos veículos. Não procurar abrigo sob árvores grandes e isoladas. Seguro é esperar pelos menos trinta minutos após ouvir o ultimo trovão para sair de casa ou do carro.

 

 


Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com