VICENTE, O CHUNCHA

Humberto Pinto de Carvalho

Quando recordamos as personagens que influíram no nosso cotidiano, de início vem à mente as traquinagens, esportes praticados, encontros e surge no imaginário um Vicente que, embora não tenha participado dos acontecidos mencionados, é uma lembrança bem humorada daquilo que um homem forte, sem vícios, calmo, encontrou para sobreviver, sem emprego e sem lar.

Quem mora numa cidade pequena necessita conversar com os parentes, vizinhos, viajantes, aventureiros. Não sendo assim, haverá o isolamento social e suas consequências. O Vicente certamente era uma das suas vítimas. Inventava cantarolar com sarcasmo. Conseguia chamar a atenção de meia dúzia de pessoas que atendiam na hora as suas pequenas necessidades de consumo: comida, roupa, chapéu. Nada pedia. Vivia num mundo encantado de negação da realidade e ainda dava forças às atividades executadas pelas mulheres, certamente, na esperança de ver um rascunho daquele ato carnal.

Com a ajuda de muitos, atravessava a sua alienação mental, podemos dizer, com dignidade e sabedoria. Em agradecimento, oferecia as mulheres dos outros, vez que não tinha nenhuma, repetindo o chavão:

- O freguês vai chegando. Cai de costa. Cai de lado. Dá um chega, vai metendo, a freguesa foi gostando e o sacana só empurrando.

- O “gulejo” hoje é forte...

Não era oferenda angelical, mas, também, não se tratava de impropérios na época ou nos dias de hoje.

Depois de cortar, transportar e trocar feixes de lenha por comida e roupa durante muitos anos, desapareceu do nosso convívio. Depois de longa espera e buscas na redondeza o Banduca falou com o Hugo que localizou um Vicente, doente, vítima de maus-tratos, na sede do município de Jaguarari. O povo daquela localidade não gostou das suas brincadeiras inocentes a procura da penosa sobrevivência. Trouxeram-no de volta à Itiúba, mas não resistiu aos sofrimentos acumulados. Deixou a lembrança, de que é possível viver dignamente, mesmo que tenhamos uma bola a menos na cabeça.

 

 

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