Crendeuspadre

Valmir Simões

 

Naquele tempo as pessoas, costumavam ficar em frente das suas casas batendo papo, proseando e falando da vida alheia, pois, à noite, nada mais tinham para fazer. Depois do café a porta da rua e a calçada eram os locais apropriados para tudo isso. Minha mãe contou-me que isso era um costume desde seu tempo de criança e eu também alcancei.

A luz dava sinal avisando que iria apagar em certo horário da noite. Em uma dessas noites apagou de imediato e quando isso acontecia o povo sempre dizia “Deu prego”. Era noite de lua cheia, mas, ela se escondia por detrás de grossas nuvens cinzentas, fazendo com que naquele momento a cidade ficasse um verdadeiro breu, ninguém ficava enxergando absolutamente nada, só o piscar dos vaga-lumes. Naquela noite, logo que a luz apagou, quem estava fora de casa cuidou de entrar. Pouco tempo depois D. Firmina chegou esbaforida, gritando: - Você viu? Você viu? No escuro havia um negocio esquipando na rua, não vi o que era, mas devia ser “Mula de Padre”, em tempo de lua cheia. Olha para meu braço, estou toda arrepiada. Disse: “crendeuspadre” três vezes e, se benzendo, saiu correndo pra casa. Minha mãe não viu nada, mas ficou amedrontada, de cabelo em pé. Cada uma se trancou em casa se pelando de medo.

A imaginação da gente prega muitas surpresas nessas horas. Escuridão, Lua cheia, tem muito a ver.




 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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