O Banho do Defunto

Valmir Simões

 

 

 

Ainda garoto, morando na minha querida Itiúba, tive a oportunidade de presenciar coisas que até hoje trago na memória. Meu pai era uma pessoa muito conhecida na cidade, sua terra natal, e tinha vários amigos. Às vezes, antes da Rádio Cultural colocar aquela macabra marcha fúnebre, ele já era informado pelos amigos e já sabia quem tinha ido visitar Jesus ao vivo. Quando podia não dispensava uma sentinela, também para tomar um “Rabo de Galo”, pinga com Cinzano, que não faltava naquelas horas. Certa vez fui conduzido a uma sentinela e fiquei traumatizado. Muito choro, desmaios, chiliques. O defunto estava no caixão com o queixo amarrado por um lenço branco e fui informado, por meu pai, que após a morte era comum dar um banho no defunto e isso me deixou ainda mais de cabelo em pé. O medo era tanto que fiquei uns dois dias sem dormir direito e, mesmo de olhos fechados, a mente só lembrava daquele momento. Já adulto comecei a observar a diferença do enterro do pobre para o do rico. No enterro do pobre tem alguém da família que até manifesta o desejo de ir junto com o falecido, naquele momento de dor, além da gritaria que se ouve por todo o ambiente. Eu pude analisar que aquele (a) que está indo é arrimo de família, e que o orçamento da casa vai minguar. No caso do rico vai deixar posses, muitos bens para o inventário. Chorar pra que? As poucas lágrimas ou olhos avermelhados estão escondidos por debaixo dos óculos escuros. O pobre deixa as lágrimas caírem nos ombros dos amigos, filhos e parentes, o caixão é conduzido na mão grande. O rico não vai em caixão e sim em urna funerária. Assim é a vida. As diferenças de poder acabam na morte.


 



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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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