Morre lentamente Itiúba dos meus sonhos antigos

Egnaldo Paixão

 

 

 

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

Onde estão o Circo do Pedro Coruja e a praça onde

ele ficou armado por três meses entre árvores e pássaros,

que agora é rua fria, sem árvores, sem nada?

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

Onde está o Bar Central de Carlos Pires,

que tinha um lugar reservado para bebedores ilustres,

lança-perfume para o carnaval e uma geladeira à gás

quando quase ninguém na cidade a tinha?

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

A misteriosa cacimba funda da rua do Galo Assanhado

e o cinema de Humberto, tocado por Zezito,

que herdou a inteligência inquieta de seu pai Manoel Pinto,

que fez a Vila virar cidade com suas fábricas e seus engenhos.

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

Belarmino, Hildete, Joviniano, Augusto Moura

e o chefe da estação da leste, quase humorista

de alma boa e batizado Miguel.

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

A Rádio Cultural, que fazia programas amenos

de cultura vasta, quando nem se falava

em tv, trios, axés, arrochas.

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

Minhas serenatas e as vozes de Ary Silva,

Alice Pires, Judite Barbosa, tantas, tiradas dos pássaros

que cantavam nas janelas matinais de minha terra,

como se fossem ensaios regidos por Deus, que vivia entre nós.

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

O saxofone de Hélio Simões, o violão de Joãozinho Marceneiro,

Os versos do Piroca do Lino, velho parceiro,

vaqueiro-poeta de inteligência rara.

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

Os primeiros vereadores que passaram dias

discutindo o que significava a palavra “penosa”,

porque a oposição qualificou determinada compra do prefeito

secamente com essa expressão dura, chula, intrigante.

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

As cacimbas de Ademir e Valadares. A Serra do Cruzeiro,

e os penitentes bêbados, que a escalavam

cambaleantes toda Sexta-feira Santa.

Morre lentamente Itiúba de meus sonhos antigos.

O açude do jenipapo e suas piabinhas generosas.

As cacimbas-escolas de minha infância,

as noites silenciosas e os construtores da cidade velha.

Morrem as lapinhas da rua dos Artistas,

os ternos de dona Helena Carvalhal,

o vinho de Manoel Raimundo,

o Boi da Tapera, o Circo do Pedro do Coruja,

a sambista circense Maria Pureza,

o trem da leste, os velhos carnavais,

e a escola do meu início (Góes Calmon).

Todos. Todos estão morrendo silenciosamente em mim.

Hoje me veio a notícia de que o Carlos Pires

já não está conosco.



 



IR PARA O ÍNDICE DAS CRÔNICAS DESTE AUTOR
IR PARA O ÍNDICE POR ASSUNTO
IR PARA O ÍNDICE POR AUTOR
IR PARA O ÍNDICE GERAL

 

Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


fpcarvalho@globo.com