OS VAQUEIROS

Humberto Pinto de Carvalho

Comentar sobre a coragem dos vaqueiros que eram nossos ídolos, quando já passados muitos e muitos anos, com certeza leva-nos a cometer algumas injustiças. Não por querer, sim, por falhas da memória abarrotada de outros acontecimentos, velhos, novos e presentes. Mesmo assim, arriscamos a relembrar, pelo menos dois deles.

Podíamos dizer que o nosso Piroca do Lino, hoje com mais de noventa anos, criou uma escola, até mesmo sem querer ser professor. Com seu jeito grandalhão, alegre, brincalhão e acima de tudo um homem inteligente. Caso não tivesse escolhido a profissão de vaqueiro-fazendeiro, por certo, seria um escritor ou poeta. A sua narrativa explicando como se preparava para correr e derrubar um boi bravo na caatinga, com detalhes impressionantes, merece ser ouvida, anotada e comentada:

- Com dedicação, muita coragem, entrava no mato, procurava ouvir barulho de chocalhos, berros, ruídos de passos dos animais e, cauteloso, identificava uma trilha. Daí partia para o local exato. Tinha inicio o “pega pra capar”. Disparava o boi e atrás o Piroca montado no seu melhor cavalo. O boi quebra os galhos e o vaqueiro deita no lombo da sela para passar por baixo dos umbuzeiros, pau-de-colher, unha-de-gato e outras árvores. Nada era cronometrado.

Tudo dependia da destreza do Piroca e do seu animal. Ao boi cabia escolher os piores lugares para passar. Ao vaqueiro cortar caminho e agarrar no rabo do boi e derrubá-lo num golpe rápido, que só um Piroca e outros poucos sabiam executar com maestria. No chão, o boi era amarrado para receber careta (espécie de máscara feita de couro cru) e cambão (um pedaço de madeira pendurado no pescoço). Vitória do vaqueiro e derrota do boi.

O outro de quem lembramos, também com carinho e saudade, é o João Bundinha. Ao contrário do Piroca do Lino, era baixo, corpo atarracado, pernas cambotas que em nada demonstrava o ágil vaqueiro, com especialidade em procurar bois semi-selvagens, assim chamados os animais que se desgarravam das fazendas e escolhiam os locais de difícil acesso para viver. Um que se tornou famoso na região de Itiúba, Cansanção e Queimadas, tinha até nome: o boi do monteiro. Boi que habitava as margens do Açude do Monteiro que fica lá para as bandas do antigo Povoado do Cajueiro, hoje

Nordestina. Adquiriu fama de ter derrotado os melhores vaqueiros. Até chegamos a ler o “ABC do Boi do Monteiro”. ABC - era assim que se intitulava o livreco conhecido agora como literatura de cordel. Corria e desaparecia num passo de mágica. Devia ser um boi esperto e hábil corredor e nada mais.

Quando o nosso João Bundinha resolveu encarar o Boi do Monteiro contou com o apoio de muita gente de Itiúba, com destaque para o seu patrão Casé que forneceu arreios novos, cavalo novo e o embornal. O custeio da viagem até o local, distante cerca de sete léguas, ficou por conta da contribuição voluntária. Tudo preparado, partiu o nosso Bundinha. Aguardamos uma semana e nada de notícias. Decorridas três semanas, chega alguém dizendo que o João ainda não havia encontrado o boi. Frustração para alguns e esperanças para a maioria. Finalmente, num sábado, dia de feira em Itiúba, apareceu, sem avisar, um pequeno criador de vacas e vaqueiro nas horas vagas, de nome Bertoldo, desconhecido até então, trazendo dois pedaços dos chifres que havia serrado do endiabrado boi, como prova da sua coragem. Comida e bebida por conta do Prefeito Belarmino, um itiubense que aplaudia e sempre cooperava nessas ocasiões. Mas, quem se orgulhava e fazia questão de demonstrar com entusiasmo era o Ari Silva, idealizador e organizador da façanha

Bravura sem prêmio. Nada almejavam o Piroca do Lino, o João Bundinha e o Bertoldo. Apenas confirmavam o que disse Euclides da Cunha, em seu livro “Os Sertões”:
– o sertanejo antes de tudo é um forte.

Aí estão as provas.

 

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