AS FAZENDAS DE BOIS DE OSSO

Humberto Pinto de Carvalho

Quando menino, ouvia dos mais velhos, homens com semblantes sisudos, com voz cheia, nítida e forte, que não se podia duvidar que no nome Itiúba faltavam as letras “L” de lei, “F” de fé e “G” de governo. São muitos anos passados. Deixo aqui a dúvida se precisamos de mais gente que goste desta cidade que tem uma das mais bonitas topografias do sertão e se precisamos mudar ou mesmo acrescentar as letras que nossos antepassados descobriram e que achavam essenciais para o progresso e bem estar do itiubense. Lembranças como esta despertam no labirinto da nossa imaginação, o fato de que, nessa mesma época, brincávamos com os nossos amiguinhos de fazendeiros criadores de gado, na chamada Rua do Corte. A cerca da fazenda imaginada era construída com pequenas pedras facilmente encontradas no chão. As "fazendas" eram divididas em currais para vacas, touros e bezerros. As vacas, bois e suas crias eram os ossos do fêmur de vacas, cavalos ou touros, partidos em dois. Do lado com volume maior eram os machos.

Do lado menor as vacas. Para bezerros aproveitávamos ossos de animais menores, como cabras. Havia cuidado especial com “o nosso bem”. Só prestavam para nossa brincadeira os ossos limpos e embranquecidos pelo sol escaldante do sertão. Todos os meninos pobres de Itiúba tinham seu rebanho. Ninguém se atrevia trocar ou mudar de lugar qualquer animal. Creio que, entre outros princípios básicos da educação doméstica, esse era o elo que deu forma ao conjunto de todas as fases da nova geração dos meninos-homem que, até hoje, tudo fazem para a grandeza desta Terra. Nós, velhos-homens, não mais montamos em cavalo de pau a correr em torno das “fazendas de gado” de então, mas, como a mesma determinação, acreditamos que nem tudo está perdido.

Os nossos cavalos-de-pau não eram selvagens. Todos tinham rédeas. Não disparavam sem um objetivo. Que o Criador faça com que os meninos de agora, com ou sem fazendas ou cavalos, passem a ter liberdade vigiada, como tivemos. Que troquem as horas passadas diante da televisão por tempo para brincar e, quem sabe, tornar realidade os seus sonhos que, certamente, ajudarão a construir um plano de vida que vá ao encontro do futuro de grandes realizações.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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