Os Farofeiros

Hugo Pinto de Carvalho

 

 

 

A quase trezentos quilômetros distante do Oceano Atlântico, é claro que a velha e querida Itiúba não podia ter praia, porém nos anos dourados de 1960 sua animada população jovem improvisou sua própria praia às margens do velho Açude do Jenipapo. È bem verdade que era uma praia sem areias, mas como a água represada do grande açude sempre foi tão salgada quase tanto como a do mar, a rapaziada e a moçada nem ligavam para este detalhe. O importante era nadar e divertir-se em suas águas salgadas. Os que não sabiam nadar levavam sua providencial bóia de câmaras de ar de carro, e os mais afoitos faziam apostas para ver quem, a nado livre, chegava primeiro ao outro lado das margens num percurso de quase um quilometro. Também não faltava a competição
de mergulhos de cima da barragem de cimento armado para tentar alcançar o “marco do 107” que ficava no local mais profunda da barragem, e que poucos alcançavam.
Domingos e feriados eram dias de festa no velho açude com muita cerveja e comida, principalmente a gostosa farofa acebolada que podia ser de peixe, frango ou de carne assada, comumente chamada de “paçoca”. Era ponto obrigatório da juventude itiubense e embora a aglomeração fosse muito grande, sempre corria tudo na santa paz do senhor. Aliás, esta sempre foi uma característica peculiar dos jovens itiubenses daquela época, a solidariedade era geral entre todos, não havia vícios nem desavenças e muito menos discriminação entre ricos e pobres, pretos ou brancos. Hoje é triste saber, que o velho açude que tanto serviu de lazer a uma população jovem alegre e engenhosa, tornou-se um reservatório de águas poluídas depois que criminosamente desviaram os esgotos sanitários da cidade para sua bacia. Lamentável.




 




 



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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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