O CAPETA

Ivan de Carvalho

 

Esta história não é de Itiúba do nosso tempo. Não havíamos nascido. É de alguns anos antes e o cangaceiro Lampião ainda assombrava as cercanias. Tia Iaiá, irmã de meu pai João Mutti, morava em Itiúba nessa época, com seu marido Joaquim e filhos, entre eles Quintino, mais tarde editor-chefe do jornal Tribuna da Bahia, em sua fundação. Como toda família itiubense naqueles tempos, criavam-se galinhas no quintal. Numa ninhada havia um pintinho, que se transformou em franguinho e depois em galo.


Sempre que a porta da cozinha estava aberta, as galinhas e o tal franguinho invadiam o recinto e esquadrinhavam o chão em busca de migalhas. Tia Iaiá sempre tangia os bichos, mas o franguinho era teimoso e voltava logo, o que fazia que a tia o expulsasse, aos gritos de “xô, capeta”, “fora, capeta”, “capeta danado”. O frango virou galo, sempre penetra e sempre chamado de capeta.

Em um certo (ou errado) domingo, Iaiá, convencida de que o galo já dera o que tinha de dar, resolveu levá-lo à cozinha, onde pela primeira vez o galináceo entrou contra sua vontade e com a devida permissão. Já morto no quintal pela empregada. Do fogão à lenha, único tipo à disposição, passou à mesa, acompanhado de arroz, farofa, feijão e tudo o mais a que tinha direito.

Tia Iaiá “armou” um belo prato para ela, inclusive com generosos pedaços do frango, que devorava com entusiasmo. Quintino, na época com uns quatro anos de idade, esticou um olhar intrigado para o prato da mãe. E disparou: “Xiiiiií! Mainha comendo capeta”. Temente a Deus e a todos os santos e anjos, além de extremamente supersticiosa, “mainha” evaporou da cadeira e voou até o quintal, onde deixou não só as partes do capeta que havia comido, como, para maior segurança, o arroz, a farofa, o feijão e tudo o mais.

Para alívio geral, ainda não haviam filmado “O Exorcista”, do contrário quase certamente ela teria exigido imediatamente a presença do padre e a realização de todo o rigoroso ritual para prevenir a hipótese de ter ficado em seu estômago, quem sabe, uma asa do capeta, se é que capeta tem asas. Antigamente, tinha, quando anjo antes da Queda. Se caiu, pode ter sido porque as cortaram. Mas, droga, para cair basta cortar uma asa, o que não impediria alguém de almoçar a outra...

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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