O PREFEITO DA LAMA DO CORTE

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

Alguns nascem bafejados pela sorte e outros encontram pela frente dificuldades incontáveis. Até os dez anos de idade nosso personagem nunca havia jogado bola. Sabia nadar, montar bicicleta, pescar de tarrafa entre outras coisas pertinentes ao seu ambiente.


Existia em Itiúba, na praça da hoje Avenida Belarmino Pinto, um improvisado campo de futebol que era a distração dos seus amigos e dos seus primos por parte de mãe: Manoelito, Enock, Edmar e Edvaldo que, como donos da bola de couro, novidade na época, vez que os outros meninos jogavam com bola de bexiga enrolada com cordão, tinham o direito de escolher os demais integrantes do time para iniciar as peladas. Sempre sobravam jogadores. Não sabemos a razão, mas um belo dia não encontraram um para colocar como goleiro. Aí começa o processo da vacina anti-política-partidária. Ao sair para ir à casa das Professoras d. Celina e d. Hilda Mendonça para estudar, é chamado para integrar a equipe. Respondeu que não sabia nada de bola. Insistiram e ao mesmo tempo convenceram o coitado a aceitar a posição de arqueiro, como também era chamado aquele que defendia o gol. Começou a partida de futebol e nos primeiros minutos a bola vai para o seu lado. Chutada não com violência, apenas bem colocada e acontece o primeiro “frango”. Depois outro e mais outros. Antes de terminar o primeiro tempo os donos da bola suspenderam o jogo e decretaram a expulsão do improvisado goleiro. Mesmo como brincadeira sadia de garotos partiram para o deboche e não para o reconhecimento do esforço e dedicação do provável craque e remataram com uma reprimenda:
- Se depender de cabeça e agilidade com ou sem bola você não será nada na vida.
Essa sentença fez com que o expulsado tomasse uma decisão à altura dos acontecimentos e replicou:
- Ainda vou ser prefeito desta terra.
Afastou-se sem olhar para trás, quando ouviu:
- Só se for prefeito da lama do corte.
O que eles queriam dizer, em resumo, é que nunca nosso personagem seria alguém.
Não havia ódio, vingança ou mesmo maléfico desejo quando pronunciaram a desdita. Apenas demonstraram quem mandava no time local e nada mais.
Não se sabia, até agora, a razão de nosso personagem não ter aceitado, em 1957, o convite do prefeito de então para ser candidato a sua sucessão. É uma oculta faceta que está associada à primeira e precisa ser narrada. Final de tarde em Itiúba – nosso personagem voltava para casa quando é chamado pelo tio e Prefeito. Sem muita conversa o tio disse:
- Amanhã passe no fórum e assine os papeis que deixei lá.
Nada mais acrescentou sobre o assunto, mas finalizou dizendo:
- Vou precisar de você.
No dia seguinte, ao chegar ao fórum, o Dr. Juiz Eleitoral mostrou-lhe tudo e disse:
- Leia e assine.
Surpresas das surpresas, lá estava o seu nome como candidato a prefeito. Como recusar o pedido da pessoa a quem admirava e acima de tudo respeitava como um pai. Pediu ao Doutor prorrogação de prazo e disse consigo mesmo – chegou a hora de pensar. Aceitar a candidatura seria abandonar uma carreira profissional que estava iniciando. Dizer não, poderia ser considerado um ingrato ou rebelde. Noite em claro, quando sem mais nem menos veio à mente uma saída. No café da manhã procurou com carinho e até cheio de gratidão o seu tio-prefeito e antes de formular sua pergunta, ele perguntou:
- Assinou tudo?
Como resposta indagou:
- Quanto o senhor ganha como prefeito?
Resposta:
- Não sei, é pouco. Não recebo. Deixo tudo com a secretária Judite Barbosa para distribuir com os mais necessitados.
Com essa revelação nosso futuro político tomou coragem e disse:
- O senhor pode e é admirado por sua bondade. Vamos pensar juntos. Como o senhor agiria se fosse um jovem pai de família, com dois filhos pequenos, uma carreira profissional que se inicia e sem nenhum pendor para política partidária?
Demorou e falou num tom de voz que demonstrava tristeza.
- Tudo bem. Então escolha um candidato para o seu lugar.
Sem muito pensar nosso personagem apresentou o nome do Wagner Melo, que trabalhava no DNOCS e vinha das campanhas de estudantes em Salvador, bom de palanque e confiável. Outra pausa e ele retrucou:
- É um bom rapaz, mas não é conhecido o suficiente para ganhar uma eleição.
Notando que o assunto não estava resolvido mostra ao tio-prefeito que podia coordenar e ajudar na campanha eleitoral do novo candidato com alto-falantes, cinema ambulante, faixas e tudo que fosse possível para ele ganhar. Apurados os votos ganha o Wagner. Alegria para os aliados. Nosso personagem constata que o seu tio-prefeito sabia que estava doente e não veria o desenrolar da administração wagneriana.
O desconhecido “prefeito da lama do corte” não quis ostentar o título de prefeito de fato e de direito, mas, a partir dessa época, ficou vacinado e recusou outros pedidos para se candidatar a chefe político de Itiúba.

 

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