Engasga Gato

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

Quem viaja pela estrada de Salvador para Itiúba via Tanquinho, conhece o Antônio do Posto. Este homem não é simplesmente o dono do Posto de Gasolina da cidade. Ele dispensa até hoje sua total atenção a todos os fregueses, sem nenhuma distinção de cor, posição social ou política. Quando chamado para dar socorro no trecho de Feira de Santana a Riachão de Jacuipe larga tudo que está fazendo e pega seu próprio carro e chega em pouco tempo ao local indicado. Assim conquista o respeito e a confiança dos seus clientes que são seus amigos do peito.
Com essa ressalva longa e verdadeira, afirmo, com imensa satisfação, que faço parte deste bando de privilegiados capitaneados pelo Anjo da Guarda conhecido como Tonho.
O seu Posto é ainda um ponto de encontro e um local tranqüilo para um café da manhã e um lanche na volta da sua viagem para as bandas do sertão.
Lembro do episódio do primeiro assalto que sofreu, quando o Posto era na entrada da cidade. Os amigos do alheio arrombaram o cofre na calada da noite para levar seu parco dinheirinho. Por aquelas coisas do destino passei no dia seguinte a esse acontecimento e lá estava sentado no seu banquinho de madeira, com seu cigarro no dedo comentando a história, sem nenhum sinal de desapontamento. Ao contrário, falava que os elementos devem ter se arrependido, pois não encontraram nada de valor guardado no seu velho cofre.
Vale recordar dos períodos das eleições municipais, estadual e federal, quando as paredes internas e externas da sua lanchonete se transformavam numa vitrine dos políticos a cata de votos. Retratos pequenos e grandes coloridos ou em preto e branco, com promessas dos salvadores dos pobres, cobrem até as laterais do balcão e portas. Para ele é uma festa. Para sua fiel clientela o que sempre interessa é ouvir e comentar os dissabores e xingamentos dos derrotados.
Para finalizar estas boas lembranças, quero ressaltar que nunca esqueci o seu famoso bolo de ovos intitulado Engasga Gato, nome que se originou do sacrifício, que um gato gordo criado no seu Posto, tinha para engolir os pedaços do gostoso bolo que caiam no chão.



 


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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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