É só alguém

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

Tempos atrás as cidades de pequeno e médio portes não tinham bancos comerciais. Serasa e Serviço de Proteção ao Crédito –SPC, cartão e cheque nem pensar. Compras e vendas eram realizadas no dinheiro vivo ou no fiado, na base da confiança. Triste daquele que ousasse esquecer de pagar a padaria, a farmácia ou ao armazém. Perdia o crédito e amargaria um tempão para recuperar o prestigio de bom pagador.
Tudo mudou e para pior. Os bancos e repartições de mansinho invadiram os municípios pobres com promessas de empréstimos fáceis, com a benção dos políticos populistas e hoje a classe média e até os aposentados que recebem um mísero salário-mínimo mensal ficam com pouco para comer, vestir, comprar remédio e transporte.
Perdemos a identidade e até o nome de batismo, escolhido pelos pais com tanto amor. Para muitos cidadãos não somos gente. Somos coisas quaisquer e só somos bons enquanto somos explorados. As filas injustificáveis estão aí para desespero de quem precisa pagar, receber, requerer os seus direitos. Enfim, somos uma figura desumanizada. Apenas um objeto de consumo.
Para abrir uma conta ninguém pergunta se o sujeito sabe ler ou escrever. A pergunta clássica é saber quanto ganha ou quanto vai depositar. Assina ou rabisca o nome num papel que não leu. Aí é seu calvário para lidar com frustrações e aprender a ser cliente sem direito de receber juros sobre o saldo positivo e pagar juros estratosféricos sobre qualquer saldo devedor e suportar a angústia de reconhecer que seu limite físico é diferente do limite imposto pelos donos da situação. Poucos enxergam o esforço trabalhado anos e anos para ter uma velhice digna. Resta ao atingir o suportável, financeiramente falando, juntar forças interiores para encontrar outro limite da sua real condição de cidadão e agüentar o estresse certo que nascemos gente e a prova é você e eu os patos da novela a procura da corrente sem fim dos perdedores.



 


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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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