Barriga D'Água

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

 

De modo geral não percebemos a falta de informações sobre autocrítica. Lembramos com tristeza os meninos com barriga grande entre os colegas da Escola Góes Calmon, que era tão comum. Refletimos que todos encaravam com naturalidade os colegas barrigudos. Alguns se destacavam pela proeminência da pança. Por respeito e pela amizade que dura até hoje não declinaremos os seus nomes. Recordamos das brincadeiras que magoavam aqueles que infelizmente eram portadores de uma doença sem cura. Hoje muito e muito depois sabemos que a esquistossomose é a causadora dessa deformação, que infernizava a vida das crianças e adultos.
As estatísticas mostram que no Brasil mais de seis milhões de pessoas são portadores do verme esquistossomo. No mundo passam dos vinte milhões.
Quantas injustiças praticadas por nós alunos sadios que foram perdoadas ou não. Quantos apelidos foram criados como: UMBIGO DE FORA, PANÇA DE ELEFANTE, BOLA CHEIA, SEGURA PRA NÃO CAIR, BARRIGA DE VENTO, POTE CHEIO, QUEM É O PAI, CABRA MACHO E FÊMEA, BARRIGUDO, PANÇUDO, BARRIGA DE MULHER, BARRICA AMBULANTE e tantos outros ainda mais maliciosos e pejorativos. Quando éramos adolescentes não percebíamos as dificuldades dos outros. Hoje, compreendemos que temos de aceitar os fatos da vida.
Os falsos entendidos no assunto falavam que o liquido acumulado no ventre era castigo, por algum malfeito praticado.
Lembramos de um remédio caseiro, que tinha fama de bom para diminuir a barrigona. O coitado tinha que tomar chá de quebra-pedras com alecrim de vaqueiro em jejum e esperar o efeito diurético da beberagem. Era uma panacéia. O doente urinava o dia todo e por conseqüência bebia água em excesso.
Tratamento e prevenção são os caminhos para identificar e erradicar o schistosoma, este sim um verdadeiro flagelo nordestino. Também é sabido que os orçamentos públicos quase nunca privilegiam a educação para a prevenção. Sempre deixa acontecer para tomar as providências. Governos e famílias têm sua culpa nesse processo. As autoridades sanitárias pouco ou nada fazem pela coleta e tratamento das fontes de água doce.
Todos nós, nascidos na região, temos uma parcela de responsabilidade. Quase todos os colegas da inesquecível Escola tomaram banhos nos açudes Coité e Jenipapo, como também nas cacimbas ao longo do riacho que corta a cidade no sentido sul-norte, áreas comprovadamente infectadas.
Aqui fica o nosso pedido de desculpas para todos os colegas que tiverem o abdome dilatado e proeminente pela terrível doença. É tarde mas é sincero e nunca devemos voltar a falar que eles empurravam tudo com a barriga.




 


IR PARA O ÍNDICE DAS CRÔNICAS DESTE AUTOR
IR PARA O ÍNDICE POR ASSUNTO
IR PARA O ÍNDICE POR AUTOR
IR PARA O ÍNDICE GERAL

 

Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


fpcarvalho@globo.com