O AR PURO QUE CURAVA TUBERCULOSE

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

Itiúba não é a terra do “já teve”. Continua linda e progredindo. Pode-se dizer no mesmo ritmo de toda região castigada pelas secas. Mas poucos de nós lembramos que o ar puro emanado das nossas serras devolveu vidas às pessoas que por aqui desembarcaram de trem à procura da cura do ataque do bacilo de Koch – agente causador da tuberculose. Eram pessoas de famílias ricas e pobres da capital baiana e até de outros estados, que ficavam curadas e passavam a divulgar, como gratidão ao povo e ao lugar, o milagre dos efeitos benéficos do ar puro que curava a doença.


Até antes da Segunda Guerra Mundial, terminada em maio de 1945, nossa abençoada terra era um sanatório a céu aberto. Muitos voltaram ao convívio familiar. Outros não. Por desconhecer, na época, os perigos da contaminação, muitos itiubenses padeceram da doença que não tinha cura, como se dizia.

Cabe um levantamento minucioso da contribuição que nossa Itiúba pagou por ter recebido esta dádiva (o bom clima) e pouco ou nada recebeu em troca.

Muitos curados casaram e outros por aqui ficaram. Pouco se sabe quem são hoje os seus descendentes. Lembramos de um que se chamava Maltez. Chegou esquelético e respirou o santo ar serrano. Restabelecido não se cansava de agradecer a Deus e a Itiúba. Nunca esqueceu os amigos. Não perdia carnaval. Desembarcava do trem “Noturno”, uma composição ferroviária com carros leitos e restaurante, que partia de Salvador todos os sábados às 16h e chegava em Itiúba às 5h30min do domingo. Confortável, passagens baratas, pontual e só parava nas principais estações.

Também é relembrada a família “Costa” dona de fábricas em Salvador, que não esquecia o bem recebido e procurava ajudar outras famílias que por aqui chegavam doentes e não tinham condições mínimas para se manterem com despesas de casa alugada e alimentação, na busca da cura. Outra boa recordação da adolescência: por volta dos anos de 1940/45 nossa família mantinha estreitas ligações com "dona" Conceição que morava na mesma rua e também era queridíssima no seio da família Costa. Tinha os filhos José Querino, que foi Oficial de Justiça, Mariana, que passou a morar com os Costas em Salvador e Dedé que, como a mais nova, participava de tudo com a nossa família. Até hoje nunca provamos um “manuê” (doce de milho) assado no forno de brasa, em pequenas vasilhas feitas de folhas de flandres, lambuzadas de gordura de porcos, igual ao dela. Uma delicia vendida ao pé do fogão, por "dona" Conceição.

Itiúba, com ou sem os Bacilos de Kock, agradece ao Criador por ter sido dotada de um clima sadio que mesmo hoje cura até ressaca. Passados todos esses anos, Itiúba continua a receber os visitantes com o mesmo carinho, na tristeza e na alegria.

 

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