O Rapaz da Capa Preta

Valmir Simões

 

 

 

A nossa velha Itiúba é recheada de histórias, testemunhadas no nosso tempo e que não tínhamos como trazer a público. Com a brilhante ideia do amigo Fernando de construir um site para que cada um contasse casos daquela época, até o próprio autor, acredito que não imaginava chegar a este ponto e com tanto sucesso, despertando o interesse de muitos leitores da boa terra. Naquele tempo a cidade tinha luz elétrica racionada, ou seja, a partir das seis da tarde, ou quando o velho motor Caterpilar bem entendesse, pois quando quebrava ou, simplesmente, dava entrada falsa de ar nos bicos injetores, aí só lá para as tantas da noite. Enquanto isso nos dias normais, depois que a luz ia embora, aproveitando a escuridão, saiam a noite atrás de alguns “biscates”, às vezes conseguiam algo, se já tivesse antes combinado, caso contrário era malhar em ferro frio. Tempo em que mesmo com a idade de menor não tinha proibições de andar pela cidade em altas horas da noite. Uns preferiam andar com disfarces, intocados em locais não muito recomendáveis, onde geralmente os adultos tinham acesso. O uso de chapéu, sem chuva ou sol, na escuridão, já era uma camuflagem. Achei por bem variar, peguei uma capa preta Colonial sem manga e passei a fazer dessa o meu disfarce. Apenas a capa me cobria, nada mais, por baixo o meu corpo do jeito que vim ao mundo, andei por algum tempo fazendo esta estripulia, vinha da rua da estação, passava pela balaustrada, frente aos correios, destino Calumbi, ou outro local combinado, tudo isso com apenas 17 anos. Um dia minha camuflagem foi descoberta meia noite e fui reconhecido pelo amigo Macambira. A partir daí sumiu o rapaz da capa preta.

 

 

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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