Longe dos Olhos...

Egnaldo Paixão

 

 

 

 

Quem mora em Itiúba, a tem nos olhos.
Quem foi embora há trinta, quarenta ou mais anos,
talvez tenha levado no coração:
o Açude do Jenipapo e suas águas
traiçoeiras e proibidas. A casa do velho Candeias,
fincada do outro lado da barragem e suas
filhas morenas e silenciosas,
bem lembrando as águas ali paradas...
e levou também duas pedras enormes,
uma em cima da outra, inclinadas, no topo
de uma das serras onde a cidade as vê como se fossem
rolar e destruir tudo após o carnaval,
que é o melhor da região e por isso o povo corre perigo
de sofrer conseqüências pela ira dos deuses...
E levou a Feira Livre organizada por ninguém.
Em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição
ficava a barraca do Pai Velho,
que vendeu miudezas até 1959.
Ao lado, o artesanato da Tapera, depois, o Bar do Zeca,
e lá vai a feira antiga descendo até o Açougue Municipal,
até o armazém de Zé Simões, pai de Valmir,
meu melhor amigo. E levou também
a Calçada de Pedra e a Ponte sobre o Rio Itapicuru,
feitas para ninguém entrar, para ninguém sair.
Se não se tomasse cuidado morreria gente...
e levou o Açude do Jacurici,
a farinha da Pindoba, as frutas da Serra de Itiúba,
um retrato à lápis de Tiradentes
desenhado em 1951 pelo extraordinário Idelson Carneiro
e exposto até hoje na primeira escola oficial da cidade.
Quem mora em Itiúba a tem nos olhos,
sejam pessoas velhas, meninos ou meninas.
Mas, quem foi embora e se agüentou por lá,
talvez tenha levado a magia da terra,
os velhos mistérios que ninguém decifra...
e certamente uma vontade louca de voltar,
para ver todos os dias o sol nascendo
e se escondendo pertinho, pertinho
do Tanque da Nação, que lindo!

 

 

 

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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