O SÁBIO QUITU

Ivan de Carvalho

 

 

Não me lembro se ele foi da minha turma ou não. O certo é que, em determinado tempo, foi aluno de minha mãe, a professora Lygia, na Escola Góes Calmon. E, para usar um eufemismo, era daqueles alunos que infernizam a turma. Bagunçava qualquer coreto.


Estou tratando de Waltinho de Quitu. A história me foi contada, décadas depois, por minha mãe.

Quitu, que conheci, era um conceituado alfaiate de Itiúba. Waltinho, que também conheci, era uma peste. Pelo menos na escola. Mas isso não significa que fosse burro. Fez, com alguma outra professora, com relativa facilidade – atrapalhado apenas por seu empenho em dar prioridade máxima à bagunça na aula e no recreio – os primeiros quatro anos do curso primário.

Mas no quinto e último ano, empacou que nem jegue amuado. E foi empacado assim que chegou à turma pela qual minha mãe estava responsável. Mais uma vez fez um quinto ano aceitável e, caso único na história escolar itiubense daqueles tempos, já era consenso geral no corpo docente da escola que ele, por tão endiabrado que era, tinha que ser aprovado e terminar o curso imediatamente. Só assim a escola se libertaria.

Ocorre que no dia decisivo, o da prova final, oral, sem a qual ninguém era aprovado, Waltinho não apareceu. Consternação geral. Estaria gravemente doente ou o que? Combinaram que lhe seria dado até o privilégio de fazer a prova depois. E minha mãe saiu em missão para saber o que estava acontecendo.

Quitu, então, demonstrou ser um sábio. Seu filho, por sinal, estava em perfeita saúde e muito bem disposto. Quitu explicou que em Itiúba não havia um ginásio e ele não tinha meios para mandar o filho estudar em uma cidade maior. Se Waltinho terminasse o curso primário, ainda na primeira adolescência, ficaria sem ter o que fazer ou, na menos ruim das hipóteses, iria passar o tempo enfiando linha em fundo de agulha, nobre tarefa da qual Quitu sozinho já dava conta com eficiência. As encomendas de roupas eram modestas.

De bom parecer era, portanto, ao conceituado alfaiate, que Waltinho continuasse, sabe Deus até quando, faltando às provas finais do quinto ano e repetindo-o no ano seguinte, “para aprender mais”.

Já que não tinha como ir aprender coisas novas em um ginásio, que ficasse onde estava, aprendendo mais do mesmo.

Sua argumentação era impecável, convenhamos. Mas, se convenceu, não comoveu. Quando a professora Lygia chegou de volta à Escola Góes Calmon, Waltinho a acompanhava para fazer as provas. Nas quais foi aprovado, para geral alívio.


SOBRE AS ESCOLAS DE ITIÚBA LEIA:

- A ESCOLA GOES CALMON I (pág.71) - Hugo Pinto de Carvalho
- A ESCOLA GOES CALMON II (pág.74) - Ivan de Carvalho
- ESCOLA GOES CALMON 3 (pág.141) - Valmir Simões
- A ESCOLA DE DATILOGRAFIA (pág.111) - Valmir Simões
- A PROVA DOS NOVES (pág. 99) - Valmir Simões

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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