A CELIDÔNIA

Herbert Pinto de Carvalho

 

 

Era uma “moça” velha que morava com uma prima. Criava um rapaz epilético cujo apelido era Cancão-de-Fogo.


Ela trabalhava muito. Fazia linguiça de carne de porco e doces de goiaba, de banana e de umbu para vender. Ainda bem cedo saia de casa, todos os dias, para pegar lã-de-seda das “barrigudas” que existiam, naquela época, nas proximidades da cidade. A lã servia como enchimento de colchões e travesseiros.

Ela morava na avenida principal da cidade em uma casa diferente onde somente a sala-de-espera ficava no nível da rua. Os demais cômodos ficavam abaixo, em outro nível, exigindo uma escada improvisada para alguém chegar até eles.

No quintal de Celidônia tinha algumas goiabeiras cuja produção era utilizada na fabricação dos doces e que sofriam ataque constante dos meninos ansiosos pelos deliciosos frutos. Ela estava sempre correndo atrás deles xingando muito e fazendo ameaças. Havia também um criatório de galinhas d’angola, que em Itiúba eram chamadas de saqüés.

Na época, falava-se muito sobre uma discussão que Celidônia teve com o proprietário de uma das “roças” de onde ela coletava a lã-de-seda usada para fazer travesseiros e colchões. A propriedade ficava distante cerca de sete quilômetros da cidade e eles discutiram, proferindo nomes feios, durante o percurso todo. Já bem perto da cidade o dono da “roça” disse:
− Chega! Já não tenho mais nome feio para lhe dizer!
E a Celidônia respondeu:
− Pois eu ainda tenho seu velho morto de fome... E continuou proferindo seus impropérios mesmo depois que o dono da roça se retirou.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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