O Velho Tacho de Cobre

Valmir Simões

 

 

 

Ainda hoje tenho boas lembranças de quando eu era criança e entrava naquela cozinha antiga com teto enfumaçado e uma chaminé oval, construída com telhas com as bordas juntas entre si, soltando uma fumaça branca. A lenha de angico, vinda da Fazenda Capoeira ou da Fazenda Tatu, ardia em chamas no fundo do tacho de cobre, cozinhando uma grande quantidade de figos colhidos no próprio quintal de meus avós, ali, juntinho a casa do Cazé de um lado e do primo João Mutti do outro. A antiga figueira sombreava uma boa parte do quintal ao lado da cozinha e os figos eram tantos que os assanhaços se alimentavam a vontade. Acredito que o maior ciúme de vovó Mariquinha não estava nos figos, mas sim, nas romãzeiras, uma fruta nobre e muito saborosa que eram acondicionadas, ainda nos galhos, com sacos de papel para proteger dos pássaros e insetos, com a finalidade de conservar a qualidade. Vovó possuía dois tachos, um menor e outro maior. Lembro-me de tudo como se fosse hoje, a fartura de leite e frutas em abundância, eram transformadas em doces e compotas, a produção era para os filhos e netos de Itiúba e os de Salvador. Nas férias de final de ano “haja tacho para tanto doce”. A limpeza era feita com limão, cinza e sabão em barra, tanto no tacho como nas alças feitas com o puro bronze. Nos dias atuais, segundo a medicina, os alimentos cozidos em tachos de cobre provocam vários tipos de doenças, tendo sido substituídos por utensílios em aço inox. Se comemos doces contaminados naquele tempo, nada e ainda estamos vivinhos.

 



 

 





 


 

 




 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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