OS SAPATOS DE VERNIZ

Valmir Simões

 

 

Estava prestes a acontecer uma grande festa em Itiúba. Seria no dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade. A Diocese de Senhor do Bonfim, aproveitando os festejos, iria promover a Crisma, assim denominado o sacramento da confirmação pelos católicos. Como eu já era batizado, pelas normas da igreja teria que ser crismado, pois os mais velhos diziam que só com o batismo a pessoa não entraria no reino de Deus, ou seja, não estaria completamente consagrado de acordo com a religião católica. A minha madrinha de batismo sempre me dizia:

− Meu filho quando você for se crismar eu lhe darei como presente uma linda roupa e um sapato de verniz preto( conhecido também, naquela época, como sapato de oleado).

Ela morava em Salvador e providenciou a compra do presente tão prometido, para aquele dia tão significativo. Quando o pacote chegou de trem fomos buscá-lo. Era uma roupa azul e branca acompanhada da boina e ao prová-la fiquei todo compenetrado parecendo um marinheiro. Procurei calçar os sapatos, mas eles ficaram apertados, o que fazer? A festa seria naquela semana. Então uma vizinha nossa aconselhou passar sebo de carneiro por dentro e por fora dos sapatos e enchê-los de jornal que logo no dia seguinte caberiam nos meus pés, pois o couro ficaria bem macio. Os sapatos foram levados para a venda do meu pai (Zé Simões) onde seria feito todo este trabalho, pela facilidade de se conseguir o sebo de carneiro no açougue que ficava próximo. Feito isto, os sapatos foram deixados na venda até o dia seguinte.

Grande surpresa tivemos no dia seguinte: os sapatos foram totalmente devorados pelos ratos que zanzavam no depósito da venda, restando apenas a parte de trás. Um novo sapato mais comum teve de ser comprado na Loja Elegante, de Josias Carvalho. O interessante da estória é que todas as fotos da minha Crisma foram tiradas apenas de meio corpo, para não apresentar a falta do sapato de verniz dado com tanto carinho por minha madrinha

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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