Quando é Seca em Itiúba

Dourival Brandão Filho

O sol despontava insistentemente dia após dia sem cessar, e ao abrir a porta ele invadia a casa e varava de fora a fora até o quintal como um rápido relâmpago, era o primeiro hóspede do dia a entrar. O céu cada dia ainda mais azul, não se movimentava e nem se ouvia o firmamento, as plantas nem se mexiam, pareciam estátuas, o silêncio se instalava profundamente, as nuvens avermelhavam-se no horizonte, parecia o armagedom, “não era bom sinal”. Agora só restava pó e pedra, os que sobreviviam pela seleção natural da resistência, procuravam os gravatás para beber água que restava entre as folhas do que fora armazenado pelas chuvas. Animais morriam, as espécies estavam se extinguindo pela seca, só se via esqueletos de animais e árvores, o chão rachado coberto de folhas secas que caiam insistentemente devido aos fortes ventos provocados pelo inclemente sol. A natureza estava em ebulição e o sol abrasador. Aí vinha a miséria da zona rural de Itiúba, não tinha mais o que comer e o
que beber, só a esperança da terra não prometida. E quando se falava o nome de Deus, tiravam-se o chapéu em respeito a ele, na esperança do socorro divino. Não tinha mais nada para comer, disse a mulher!, a não ser Peri nosso cachorro de estimação, companheiro de todas as horas e que também está perdendo peso devido a fome, tenho que andar ligeiro pois não temos mais o que comer, vou matá-lo: retalhá-lo para comermos o pirão feito bode, deve nos sustentar por uns quinze dias até vê se chove, se assim Deus nos permitir.

Nunca vi tanto sofrimento, quase ninguém olhava para o sertão nordestino, o semi-árido de bravos guerreiros e ainda eram chamados de sub-raça. E corroídos pela fome e pelo auto canibalismo das tripas que devoravam-lhes as proteínas por causa da má nutrição, não se exauriam nem se depauperavam as forças para o trabalho braçal, imaginem se eles fossem bem alimentados.

Lassidavam-se de fome, que força de trabalho o município e o Brasil não teriam se os olhassem melhor e quando não havia mais possibilidades de sobrevivência naquele local, o município sofria a migração populacional diária em busca dos grandes centros de preferência São Paulo, à procura de uma vida melhor. E quando o município sofria aquela sangria da migração, por falta de gente não havia mais consumo na cidade, o comércio ia fechando, a cidade se esgotando, só se via mãos acenando adeus e a saudade nos corações daqueles que por ali ficavam capazes de morrerem por amor a terra.

A alegria só reaparecia nos períodos sazonais das festas, quando chegavam aqueles que foram embora. E depois dos festejos, quando terminava tudo, retornavam para suas respectivas cidades que escolheram morar, então voltava tudo como era antes, não havia mais nada, agora faltava tudo, já se ouvia novamente o silêncio, a cidade estava morta de novo e os grilos faziam a festa com os seus estridentes crí-crís noturnos, era a sinfonia que fazia treinar a audição dos moradores que ali ficaram.

 


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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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