Água Envenenada

Dourival Brandão Filho

 

 

 

Certo dia, em um poço d’água, dentro de uma propriedade rural no município de Itiúba, encontrava-se escrito numa plaqueta de madeira pregada num pedaço de pau enfincado ao redor do poço, a seguinte frase: “ÁGUA ENVENENADA.”
Tudo isso para espantar os vizinhos de olhos grandes no que era dos outros, quando na realidade, o proprietário havia colocado um determinado produto tóxico, que causava um ligeiro desconforto, seguido de desarranjo intestinal e dores hepáticas bem fortes, para àqueles que roubassem da água para beber. Isto foi feito com o objetivo de amedrontar os adeptos do poço e espantá-los, porque o proprietário não agüentava mais emendar o arame da cerca que era arrombado quase todas as noites pelos vizinhos e que se diziam honestos, de simples costumes, porém vezeiros em roubar água durante a madrugada.
Tal episódio já vinha acontecendo antes de o dono colocar o produto na água. E em uma determinada noite, meio escura ao chegarem lá, os vizinhos viram o que estava escrito na plaqueta de madeira e não deram a menor importância, pois todos eram analfabetos. Para eles, aquilo não passava de um simples ornamento que por acaso parou por ali. Riram, desfizeram e pegaram água, dizendo assim: O que será que está escrito?
Conclusão: pegaram água para diversas aplicações doméstica: beber, tomar banho, cozinhar etc. Até que lá para meia noite foi àquela agonia, todos com dor de barriga, febre, suadouro, palpitações e a gritarem; suplicavam ao vizinho dono do poço que os socorresse.
E com toda gentileza já percebendo a gritaria, acordou devido a tanto barulho, gemidos e foi até lá na casa dos vizinhos para ver o que estava acontecendo. Verificando o drama, levou-os em cima de um caminhão até o centro da cidade, para consulta no posto médico de Itiúba. E examinados pelo médico, após alguns minutos, o laudo: “Quase envenenamento por produto tóxico”, todos estavam gravemente intoxicados. O médico convocou todas as enfermeiras de plantão e ordenou-lhes que aplicassem lavagens intestinais e medicassem conforme sua prescrição a todos enfermos ali presentes. E retirou-se para sua casa para continuar seu repouso que fora interrompido, pois não era o seu plantão, foi atendê-los devido a imediata necessidade e por ofício da profissão.
Após alguns minutos quando tiveram uma pequena melhora, e todos pensando em morrer, um dos quase envenenados começou agitar e convidou aos outros para darem queixa na delegacia, pois já sabiam para si que tudo aquilo fora proveniente da água que beberam que haviam roubado silenciosamente durante a noite.
Ao chegarem à delegacia queixaram-se ao delegado de que sofreram envenenamento por uma água que beberam e que queriam providências para o mal feitor.
O delegado começou a interrogá-los e eles revelaram a suspeita. Então querem providências, e por que beberam da água alheia se não pertencia a vocês? E por cima envenenada.
Responderam os queixosos: querendo comprometer o dono do poço. Bem, chegamo ao local onde era de costume nóis pegar água escondido e embora nóis visse à margem do poço um pedaço de tauba pregada num pau enfincado no chão e como nóis num sabe ler, inocentemente pegamo da tal água para beber e usar em outras necessidades da casa.
O delegado: e como vocês souberam que a água estava envenenada?
Os queixosos: alguém nos disse depois dos sintomas do quase envenenamento. Para melhor clareza senhor delegado, foi o médico que nos examinou, deu o laudo. Agora o senhor devia punir o proprietário do poço, pois estamos conscientes de que quase morremos e ainda não estamos totalmente isentos do perigo.
Respondeu o delegado: ele não tem culpa de nada, além de ser dono da propriedade, poderia fazer o que bem quisesse em sua roça, atrevidos foram vocês que deviam ser indiciados por roubo e coletivamente presos e ainda vêm aqui dar queixa. Ele sim, fez isto para descobrir quem estava roubando a sua água e partindo o arame de sua cerca, dando-lhes prejuízo diário e ainda vêm pedir punição para o dono!...
É melhor que procurem estudar, aprender a ler, procurem o “MOBRAL. O analfabetismo tem que ser extinto.

 

 


 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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